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	<title>Fdomeniconi&#039;s Blog</title>
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		<title>As Dunas (um dos mais antigos&#8230;)</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 16:08:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Não que eu realmente me aborreça. Parece que durante todos esses dias aprendi a conviver com meus próprios ruídos. Agarro-me a cada detalhe, talvez até com um certo desespero silencioso, mas muito natural. Detesto a avidez, mas consigo sobreviver de forma quase agradável às limitações curtas de nossa sala, dos quartos, da cozinha. Cada um, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=37&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não que eu realmente me aborreça.</p>
<p>Parece que durante todos esses dias aprendi a conviver com meus próprios ruídos. Agarro-me a cada detalhe, talvez até com um certo desespero silencioso, mas muito natural. Detesto a avidez, mas consigo sobreviver de forma quase agradável às limitações curtas de nossa sala, dos quartos, da cozinha. Cada um, agora, me parece sem qualquer segredo, uma coisa muito irritante. Principalmente a cozinha, onde passo a maior parte do dia, enquanto Artur não regressa. É estranho porque, estando nela, deixando de lado talvez apenas o incômodo da falta de sons e a presença do vento, tenho a sensação de que tudo permanece como sempre foi. Através da vidraça pequena e limpa, ainda consigo ver as violetas colocadas nos vasos sobre o peitoril da casa do outro lado da rua. Um pouco tristes, talvez, pelo esquecimento. Posso perder ainda vários minutos observando o cata-vento sobre a torre da igreja, rodando louco em redor de si mesmo, a única coisa móvel além de mim e Artur após as seis da tarde. E, com eles, uma pequena infinidade de sinais de vida foi pouco a pouco se incorporando à minha, de tal forma que, pelas manhãs, procedo a uma lenta verificação de cada um, o corpo todo tenso, suspenso na horrível sensação, no horrível medo de que um deles não vai estar no lugar de costume, que terá partido, também, como as pessoas. É como cultivar leões, sempre na interminável espera que um deles acabe nos devorando de repente.</p>
<p>Há somente uma janela que não me permite esse cultivo, a maior delas, que dava diretamente para o campo e a rodovia que o parte em dois. Através dela, sentados nas poltronas da sala, ficávamos muitas vezes quase até a madrugada, perdendo o olhar na noite pesada que se espalhava sobre tudo, igualando, fazendo desaparecer. Não acendíamos a luz, a lua se encarregava do pouco que precisávamos. Artur acendia seus cigarros e, a cada tragada, eu podia ver por alguns segundos seus olhos grandes e caídos. Os bigodes, às vezes, se dividiam em uma espécie de sorriso, talvez nem isso, mas somente uma expressão de felicidade que toda a calma deveria traduzir. Permanecíamos assim por várias horas, como figuras de leite deslizando por um cenário desconhecido, ouvindo um cão que insistia em latir para o nada, para marcar sua presença naquele universo imóvel, vendo sem pressa a lua se esmagar contra a vidraça, cortando-se, lançando-nos, com o passar das horas, num lago escuro e denso de onde saíamos apenas para dormir. Já faz algumas semanas, entretanto, que Artur cobriu nossa noite com um espesso cobertor preso à parede com pequenos pregos. A janela, agora somente um retângulo negro e morno diluído no sol da tarde, provoca-me algum medo, alguma inquietação. Sei que, por trás dela, poderia avistar as dunas. Nossas dunas amarelas, brilhantes, movendo-se em sua respiração luminosa e alternada. Sei que elas se mantém vivas atrás de nosso cobertor. Posso até mesmo senti-las bem próximas quando consigo ouvir o vento ao atravessar, sempre depressa, a sala aquecida.</p>
<p>Às vezes fico espantada com o número de pequenas coisas que consigo realizar para atravessar o dia. Pela manhã, depois de cuidar do quarto, começo quase que maquinalmente a preparação dos doces. Poderia ser mais rápido, mas, após tanto tempo vivendo desta forma, a gente aprende a se demorar nos mais simples trabalhos, atingindo-se os limites da monotonia e da rotina que, agora sei, estão muito mais distantes do que se possa imaginar, embora nada consiga ser tão cansativo quanto a inatividade e as cadeiras. E é assim que perco a metade do dia, lavando e descascando cada uma das frutas que Artur sempre me traz todas as tardes. Em menos de uma hora, os pedaços já estão no fogo, o açúcar começando lentamente a derreter, escurecendo devagar, ganhando uma coloração de vidro. Me assusta. É como uma pequena duna branca sendo destruída. Descobri que me causa um estranho prazer esse passageiro poder que adquiro de exterminar as dunas, de transformá-las em uma enorme calda de areia negra sobre o campo. Só me desprendo disso quando a casa toda começa a ser invadida pelo cheiro ácido dos morangos e pêssegos, pelo denso aroma das goiabas ou ainda pela suavidade um tanto perturbadora das maçãs. Todo esse processo, acompanhado pelo ruído seco da colher de madeira raspando no fundo dos tachos, me absorve por completo. Tudo passa a se resumir apenas em odores e sons. Nada parece ter a capacidade de quebrar esse momento até que, subitamente, uma primeira bolha explode com dificuldade na superfície de aparência dura dos doces. Seguem-se uma segunda, uma terceira e logo toda a cozinha submerge naquele borbulhar viscoso, rouco. Só então consigo me isolar de tudo. O sol, em geral, já está começando a declinar nesse momento e, pela primeira vez durante todo o dia, sinto-me completamente só. Quase sempre ligo o rádio, ou me ponho a lavar com violência a louça usada. Procuro fazer o máximo de sons possíveis para encobrir o silêncio que vem de fora, que atravessa as paredes, que me faz lembrar as dunas pacientes em sua espera. Em nossa espera. Pouquíssimas vezes choro.</p>
<p>A noite começa a se erguer sem que eu costume perceber. Da rua vazia vem um som forte, contínuo, mas que, nem por isso, tem algo de inesperado. É isso que provoca o desespero maior, nada mais existe de inesperado, de novo, de secreto. Todas as coisas que fazem parte de nossas vidas se tornaram passos, uma seqüência prevista de atos e pensamentos que tentamos contornar e vencer, mas é inútil. Nada do que fazemos, falamos ou até mesmo queremos sai de uma determinada linha de gestos e costumes que invariavelmente mantemos viva, como que se dela dependêssemos para sobreviver. É uma escolha desagradável entre a morte de situações e a vida de repetições incontroláveis. Ontem, pela manhã, atirei uma xícara contra a parede. Não adiantou. No primeiro instante senti que ela explodia dentro de mim, que o som ficaria para sempre preso no ar. Foi como se eu mesma me estilhaçasse. Logo depois, porém, compreendi que se continuasse a repetir o gesto nos dias seguintes, ele também se tornaria parte da mesma seqüência. Um elemento novo que logo perderia todo o significado. Tudo como o resto. Me senti perdida. Não sou capaz de criar sequer minhas próprias situações.</p>
<p>O automóvel pára e, logo depois, o contorno de Artur contra a porta de vidro fechada da sala. Antes de desaparecer para o quarto com os jornais, larga sobre a mesa duas ou três caixinhas com frutas maduras. Enquanto me ocupo em desembalá-las e preparar o jantar, o dia &#8211; agora noite, ganha uma conotação inesperada com a presença viva de outra pessoa compondo perturbações que não tenham sido criadas por mim. Ainda que não sejam diferentes das do dia anterior, é pela primeira vez que me sinto existir, ocupar algum lugar definido. Ter uma finalidade. Aí então o chuveiro lá dentro enquanto estendo uma toalha sobre a mesa e espalho a louça sem nenhuma atenção, numa deliciosa capacidade de improvisar um pouco. Depois o arrastar de chinelos e de novo Artur, incrivelmente grande colocado diante da abertura que separa a cozinha do corredor, um retângulo dentro de outro. Sem avisos ou mesmo até olhares mais prolongados e muito perigosos, jantamos com calma, alguma coisa que me põe tanta angústia quanto o vento intérmino que ouço durante a noite, os talheres se trincando contra os pratos, os copos baixando com um som seco sobre a mesa. Pouco depois já estamos colocando os doces nas compotas, para quê, meu Deus? marcando com um lápis grosso o sabor por cima das tampas e empilhando os vidros lacrados entre nós, uma parede doce e irregular que ajuda a nos evitarmos. A destruição de todos os sonhos. Nesses momentos, quase não nos falamos. Gostaria muito de perguntar, mas não chega a ser preciso. Nós apenas sabemos. As dunas estão se aproximando cada vez mais, imperturbáveis. Vêm ao nosso encontro, nos estendendo seus braços vivos, últimos que somos, depois que todos partiram sem olhar para trás, deixando uma ausência completa de vida que atravessa todas as casas lá fora, como uma enorme fera, invisível e muda. Tentamos adiar a verdade para que ela não exista, não importe, não seja mais que uma estória desconhecida guardada em segredo. Subitamente, toda essa seqüência de imagens e pensamentos me é quebrada pela voz áspera de Artur. É alguma coisa de agressiva, de tão repentina, que chega a me causar uma tonteira, algo que se divide por todo o corpo, destruindo o chão. Uma enorme xícara explodindo contra a parede. Tudo o que construí sendo delicadamente arrebentado. Nada posso fazer e não preciso, na verdade, me concentrar no que ele diz, apenas sei. Percebo-o erguer-se com alguma dificuldade para sair, um gesto descuidado derrubando uma compota de pêssegos da mesa, o doce amarelado se espalhando sobre o chão liso.</p>
<p>O simples fato de agora termos que encarar isso como uma verdade irredutível, faz com que a casa se distancie de mim. Corro o olhar pela cozinha, pelo pedaço de sala que consigo entrever, uma lista absurda dos objetos que podemos levar me atravessando a mente, o odioso lado prático. Numa sucessão rápida e obscura de lembranças, vou separando as coisas: as intermináveis compotas, o rádio, alguns retratos e louças&#8230; em pouco tempo consigo reunir nossas vidas num amontoado incoerente de objetos.</p>
<p>A casa, agora, nada significa.</p>
<p>Passamos a noite toda acordados, o olhar preso no teto, a ouvir o vento, fingindo, num pacto sem sentido, que dormíamos tranqüilos. Fiquei cada minuto suspensa em uma certa ansiedade, um certo receio de que os primeiros sinais da manhã, os primeiros gritos da madrugada pudessem me partir ao meio, esperando que a noite se tornasse magicamente interminável. Sempre me julguei capaz de transformar o último segundo em um século.</p>
<p>Artur acaba de sair, talvez pela última vez.</p>
<p>Quase que com raiva, ponho-me a fazer coisas nada habituais, mas sem nenhum prazer nisso, uma pilha de objetos irregulares e sem sentido comum se formando à porta da entrada. As roupas dobradas e limpas, os sapatos sem brilho, pequenas caixas veladas. De repente, a inexistência de um passado. Nada nos aconteceu durante todos esses meses e o pior é que começo a achar isso agradável.</p>
<p>Quando acabo, olho sem nenhuma emoção para tudo aquilo à minha frente, eu e Artur representados por um pequeno número de toalhas, quadros e caixotes. Começo a chorar, não tanto pela partida inevitável, que ela pouco me aborrece, mas talvez pela casa, agora tão impessoal e lisa, uma lâmina de vidro partida. A sala ainda permanece em sua noite constante. Paro diante do enorme cobertor sentindo seu calor, uma coisa fria que chega até mim e, com uma coragem desconhecida, arranco-o da parede. A claridade do sol se espalha de imediato por tudo, um golpe, as poltronas empoeiradas se encolhendo, retornando a seus lugares de costume. Recuo alguns passos, de repente assustada ao me deparar com as dunas lá fora, a apenas alguns metros de mim, me encarando avermelhadas. Estão enormes, próximas. Imensas em sua espera. Fortes. Posso sentir sua força. Indestrutíveis, porque fortes. Fortes, porque indestrutíveis. Nada como o açúcar dos doces. E prosseguem em seu caminho, prontas para cobrirem tudo daqui a dias, horas. Cada quarto, cada espaço será apenas areia quente, um fogo sólido, macio.</p>
<p>Artur chega ao entardecer. Carregamos o carro sem ânimo, sem pressa. Adiar, como sempre, este instante, até que se torne impossível. Entro pela última vez. Volto logo depois, carregando algumas coisas esquecidas e partimos, depois de trancar a casa numa desesperada tentativa de protegê-la. A lua cheia se divide na superfície luminosa das dunas que deixamos para trás. Volto-me para Artur, com a necessidade de dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas ele chora em silêncio.</p>
<p>Ainda olho por sobre os objetos que se amontoam no banco traseiro. As dunas parecem imóveis. Sempre pareceram, e é isso que as torna tão irreais, inofensivas e mortais. Resolvo não contar a Artur que, ao entrar ainda há pouco, encontrei areia espalhada pelo chão da sala.</p>
<p>É preferível pensar que partimos antes do fim.</p>
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		<title>Este talvez seja meu conto mais simbólico, mas também um dos que saiu com mais facilidade&#8230;</title>
		<link>http://fdomeniconi.wordpress.com/2010/12/29/este-talvez-seja-meu-conto-mais-simbolico-mas-tambem-um-dos-que-saiu-com-mais-facilidade/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 18:57:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Jonas e a Casa de Jonas Primeiro foi a mãe, uma visitação como tantas outras, às vezes aparecia logo cedo e se deixava ficar até o almoço, em conversas partidas, sem significado, enquanto aguava as plantas, estendia os lençóis para que pegassem cheiro de sol, ou corria preparar um café forte e pouco doce que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=35&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jonas e a Casa de Jonas</p>
<p>Primeiro foi a mãe, uma visitação como tantas outras, às vezes aparecia logo cedo e se deixava ficar até o almoço, em conversas partidas, sem significado, enquanto aguava as plantas, estendia os lençóis para que pegassem cheiro de sol, ou corria preparar um café forte e pouco doce que se arrastava por toda a casa e demorava o resto do dia para se desprender dos cantos e cortinas. Isabel gostava. Entregava-se, irresistente, à presença sem contornos da mãe, à calma insuportável com que ela realizava cada gesto pacífico, suspendendo-a pelo ar, como se um movimento um pouco mais descontrolado pudesse partir o instante pelo meio. Era um contágio e, de tanta vezes, já lhe parecia impossível separar a presença benéfica da mãe de seus dias atenuados e limpos. Ligava o rádio, baixinho, e permitia que se confundissem, numa única impressão atordoante, músicas, os sons vagos da rua e a voz da mãe; primeiro foi ela, naquela manhã que nada continha de específica, não fosse talvez um quase invisível aviso de chuvas entrando com um vento fresco que se aquecia antes mesmo de lhe chegar a tocar o rosto. Mais tarde, sozinha, Isabel iria acreditar que não havia maneiras mais ou menos suaves de se dizer:</p>
<p>- Jonas não virá almoçar, hoje.</p>
<p>Disse, apenas, e havia sido somente para preencher um inocente intervalo de silêncio que havia se formado enquanto a mãe guardava as xícaras e ela se ocupava com algumas escarolas.  Na verdade, jamais chegaria a perceber o olhar cheio de angústias da mãe não fossem as três xícaras que praticamente se lançaram ao ar e se quebraram em dezenas de pedaços contra o piso da cozinha. Foi muito rápido, e Isabel mal teve tempo de perceber a mãe, inerte em meio aos cacos de porcelana espalhados pelo chão, os braços caídos junto ao corpo e uma tristeza quase infinita à sua volta. Em poucos segundos, entretanto, retornava à vida e, disfarçadamente, enquanto recolhia os pedaços, disse alguma coisa incompreensível e enxugou os olhos com as costas da mão. Isabel voltou-se depressa para a pia, assustada, e olhou através da vidraça para a rua, como se fizesse aquilo pela primeira vez, como se pela primeira vez visse aquela calçada, o canteiro e o sol forte que arrebentava em cada pedra.</p>
<p>Logo no início da tarde foi a vez do vizinho que tocava cello. Isabel nunca o tinha visto, mas pôde reconhecê-lo com facilidade ao abrir a porta e encontrá-lo, desajeitado com o enorme instrumento que não conseguia apoiar no chão. Era um pouco diferente do que ela havia imaginado e lhe parecia ser tão custoso descobrir-se daquela forma, à luz transparente do dia, quanto era para por demais complicado para Isabel ter diante de sua porta alguém que nunca a havia visitado e, assim, quebrava todo o equilíbrio delicado de ordem que ela tentava manter. Por quase quinze minutos ficaram os dois ali, num silêncio constrangido, ele na procura confusa de uma posição mais cômoda para o violoncelo, ela tentando achar qualquer precedente que a ajudasse. A única coisa que ocorria a Isabel era uma improvável porta travada por um golpe de vento, ou uma súbita necessidade de utilizar o telefone ou pedir aspirinas, mas sempre sobrava o cello, enorme, inoportuno, sem razão de ser. Sentia-se a ponto de chorar quando, com um inarticulado pedido de desculpas, ele entrou e acomodou o que carregava em uma poltrona, enxugando da testa uma grossa camada de suor. Isabel fechou a porta, nervosa.</p>
<p>- Pois não? &#8211; Disse, subitamente feliz por haver transferido toda a responsabilidade dos começos para seu visitante.</p>
<p>- Sou seu vizinho. &#8211; Explicou ele, procurando isentá-la de qualquer culpa por aquele incidente. Isabel sorriu, satisfeita. Afinal, o violoncelo começava a ficar menor.</p>
<p>- Sente-se, por favor. &#8211; Sentia-se mais livre, embora conservasse a inexplicável certeza de que tudo aquilo era algo que deveria esquecer mais tarde.</p>
<p>- Ah, não! &#8211; Gritou ele preocupado.- Quero dizer, muito obrigado, eu&#8230;eu só estou aqui de passagem. &#8211; Olhou para o instrumento e, mais uma vez, parecia querer justificar-se. &#8211; Vim&#8230; &#8211; Silenciou, de repente, sentando-se como podia na mesma poltrona em que colocara o cello. Isabel suspirou e, de uma forma indefinida, achou que sentia compaixão pelo pequeno visitante.</p>
<p>- Vou preparar um café. &#8211; Era o máximo que podia fazer para encorajá-lo a prosseguir. Deixou-o encolhido, ansioso, e saiu depressa para a cozinha. Foi enquanto enchia a chaleira. Olhou, como fizera pela manhã, através da vidraça, e concluiu que realmente desconhecia aquela rua, jamais havia visto aquelas pessoas e não se recordava de haver, algum dia, pisado naquele calçamento. Ouviu, então, um ruído estranho vindo do segundo andar da casa, um som abafado de madeira se envergando ou de pedras se chocando, mas quase não chegou a prestar atenção, uma vez que, logo em seguida, o cello começou. Primeiro tímido, como deveria ser, como se ele apenas afinasse o instrumento. Depois um pouco mais forte e decidido, uma busca terminada, e, logo, toda uma melodia entristecida se desenvolvia e derramava pela casa. Era bonita, apesar de os acordes se repetirem sem pressa, como se jamais fossem terminar. Quando Isabel voltou à sala, com o bule e as xícaras em uma bandeja, aguardou ainda por alguns minutos, imóvel, quase deliciada, até que o visitante se apercebesse de sua presença e interrompesse a música com uma última e prolongada nota que correu através da sala e saiu pela janela. Olhou-a, demorado e, sem mesmo largar do arco de crinas, concluiu:</p>
<p>- Vim porque soube a respeito de seu marido.</p>
<p>- Jonas não veio almoçar, hoje. &#8211; Disse Isabel, colocando depressa a bandeja sobre a mesa de centro, antes que a cena da manhã se repetisse, incontrolável, destruindo todo o seu aparelho de café. O vizinho se ergueu, como se não a ouvisse, e, servindo-se do bule, bebeu o café num gesto rápido. Agarrou o cello e, dirigindo-se à porta, falou, sem encará-la:</p>
<p>- Todos nós compreendemos.</p>
<p>Saiu em seguida, ainda mais perdido do que quando chegara, deixando a porta aberta.</p>
<p>Isabel só tinha certeza de que a percebera no final do dia, mas não podia precisar quantas vezes havia passado diante dela sem se dar conta de sua existência. Estava ali, e, mais tarde, quando se recordasse daquele dia com a desagradável sensação de que ocorrera há muito tempo, diria que poucas pessoas reparariam em uma simples porta, mesmo que ela estivesse ocupando um espaço que, naquela mesma manhã, estivera sempre reservado a um pedaço liso e branco da parede do corredor. E no entanto, ali estava, nova e muito bem instalada, entre os dois quartos, trinco e dobradiças polidos. De início, havia sido possuída pelo medo incontido de haver descoberto algo desconhecido dentro de sua própria casa: uma porta fechada, uma violação. Depois de algum tempo, porém, ainda imóvel no meio do corredor, o medo começara a ceder e o incompreensível passara a atraí-la. Se era uma porta, deveria conduzir a algum lugar. Entrou nos quartos, olhou pelas janelas, tentando encontrar o outro lado, mas não havia nada, nenhum sinal de continuação, nenhum vão ou canto que, até então, houvesse sido ignorado. Conhecia a casa muito bem e sabia, tinha a certeza de que aquela porta deveria abrir para o nada, para uma vista insensata e estéril da rua. Encostou o ouvido na madeira lisa, sem resultados. O único som que conseguia perceber era o do vazio, um vazio longo e distante, vez por outra quebrado por um estalar abafado de madeira, por um roçar quase inaudível de tijolos se esfarelando. Mais nada. Pôs a mão no trinco e experimentou, com uma cautela tensa e deliciosa lhe atando o corpo todo. Não estava trancada, e abriu um pouquinho para dentro com uma inesperada suavidade. Isabel permaneceu assim por alguns minutos, ansiosa, a mão congelada, até perceber que o mal estava feito para, então, abrir a porta de uma vez por todas, num único e decidido golpe, e encontrar somente um cômodo minúsculo e vazio, sem janelas ou mobília, e ainda cheirando a tinta fresca. Era, de alguma forma, uma decepção. Com o medo desfeito por uma rápida descarga que lhe percorreu os ombros, Isabel arriscou-se a entrar, devagar, no quartinho escuro, a luz do corredor conseguindo iluminar parte do assoalho e das paredes recém caiadas. Não havia muito o que ver, parecia um quarto de despejo abandonado, inútil. De repente, animou-se um pouco com uma idéia boba: viesse de onde viesse, aquele lugar bem servia para acomodar aquele monte de caixas de papelão que Jonas insistia em manter na garagem, ocupando espaço e juntando poeira. Sentiu-se leve em poder pensar naquilo e, por certo tempo, distraiu-se tentando imaginar como poderia guardar tantas coisas velhas ali. Era até mesmo uma pena que não houvesse surgido um quarto maior, onde pudesse, talvez, ajeitar o carrinho de feira, um traste, e a máquina de costura que herdara da avó. Sentia-se quase voltando à tranqüilidade quando, parecendo ouvir um roçar de pedras do outro lado da parede, Isabel tornou a sentir uma espécie de pavor vago e saiu depressa. Parou junto à porta, um tanto enjoada, e observou que já havia quase anoitecido. Os restos da tarde chegavam, mornos, com uma claridade entristecida e alaranjada. Mesmo sem desejar, sentiu-se mais uma vez sozinha e se lembrou de que Jonas não viria para o jantar.</p>
<p>Algumas horas depois veio o padre. Isabel recebeu-o coberta de pó e teias de aranha, com um enorme lenço ramado na cabeça, perdida em uma confusão de caixas de papelão abertas, papéis amarelados e fotografias descoradas que resolvera transportar para o novo quarto, antes que Jonas retornasse. O padre pareceu não reparar na desordem e, afastando com cuidado uma pilha de livros corroídos, sentou-se na mesma poltrona em que o vizinho colocara o cello no início longínquo daquela tarde. Isabel não se lembrava mais do padre, uma vez que o vira pela última vez somente durante a cerimônia do casamento, mas tinha a impressão de que ele engordara, talvez porque mangas da batina repuxassem toda a vez que ele coçava o nariz. Pensou que fosse alérgico a poeira e isso a martirizou um pouco, como se fosse responsável por fazê-lo sentir-se pouco à vontade. Não conseguia imaginar o que dizer e parecia que ele também procurava um assunto qualquer, já que retorcia a ponta da batina com extrema inquietação, enquanto olhava, aflito, ao redor. Subitamente, mais por estar cansada de esperar do que para começar um assunto, Isabel levantou-se e, fechando uma das caixas, disse:</p>
<p>- Estou tentando dar uma arrumação nessas coisas todas. Tenho um quarto a mais na casa, hoje, e&#8230;</p>
<p>- Nós compreendemos. &#8211; Interrompeu o padre, angustiado, baixando a cabeça em seguida, como se houvesse se arrependido do que acabara de dizer.</p>
<p>Isabel irritou-se. Parecia que, nas últimas horas, todos compreendiam tudo antes mesmo que ela necessitasse explicar. Era uma sensação áspera, bastante desagradável. Na verdade, quem começava a não entender nada era ela mesma. Jonas decidira não jantar em casa, uma porta havia surgido em seu corredor, todo mundo entendia e, pior que isso, todos se expressavam em grupo. Eles compreendiam. Eles sabiam. Eles tinham pena. Aquele dia insuportável havia se tornado uma sucessão monótona de visitas repetindo as mesmas palavras insanas e se comportando de maneira idêntica. O padre percebeu sua irritação e, também erguendo-se, disse, mais uma vez coçando o nariz:</p>
<p>- Eu poderia ajudá-la.</p>
<p>- Não é necessário. &#8211; respondeu Isabel, quase em pânico. &#8211; Jonas deve chegar logo.</p>
<p>- Ele pode demorar. &#8211; Adiantou o padre, mais uma vez olhando para o chão. Isabel achou que ele tentava amortecê-la de uma dor maior, que ela ainda desconhecia, e começou a se sentir mal por vê-lo daquela maneira. Além disso, talvez ele pudesse ser realmente útil. Algumas caixas eram pesadas demais para que as carregasse sozinha escada acima.</p>
<p>Foi muito mais tarde, mas Isabel já não conseguia precisar quase nada. As coisas pareciam se precipitar a sua volta, sem que ela pudesse interferir. As últimas horas haviam se escoado de uma forma insípida, como um gotejar, um escorrer lento e quase imperceptível, que podia apenas adivinhar. Tentava se lembrar da mãe quebrando a louça, mas era impossível, parecia passado, terminado. Sabia, apenas, que a noite já ia alta e morna, um silêncio quente entrava pelas janelas abertas e vinha até o pequeno quarto. O trabalho, ao menos, havia sido produtivo, e quase todas as caixas já estavam empilhadas e ordenadas. O padre ainda continuava a trazer as últimas que restavam, quieto, a batina se escurecendo com grandes manchas arredondadas de suor, o rosto vermelho e congestionado pelo esforço. Haviam parado por alguns instantes e bebiam limonada gelada, em silêncio. De alguma forma, Isabel achava que ia ficando um pouco mais calma. O quarto, sobretudo o quarto, já não parecia tão deslocado, tão inerte. Passava a ter uma finalidade, havia sido ocupado e já começava, até, a cheirar mofo, um cheiro tranqüilo e alegre de mofo e papelão úmido que lhe transmitia, mesmo, a aparência de sempre haver existido. O padre, por sua vez, havia se revelado uma pessoa extremamente simpática e silenciosa. Isabel não havia tido a necessidade de explicar nada a respeito do novo cômodo, e isso a alegrava. Observou-o. Bebia calado, um tanto ofegante, as bochechas luminosas, sem mais aquele constrangimento difícil que a irritara demais no começo da visita. Remexia, distraído, em algumas fotos espalhadas pelo chão, fotos velhas, cheias de manchas descoradas e furos imperfeitos de traças. Subitamente, com a voz ainda falha,  disse:</p>
<p>- Esta aqui é você?</p>
<p>Isabel se aproximou e olhou. Parecia ela, quase não havia dúvidas de que fosse ela, dez ou quinze anos atrás, usando uma saia curta de pregas e um ridículo cabelo armado na nuca. Talvez fosse ela, sim, mas estava tão difícil de reconhecer, tão distante, como se não pertencesse à foto, como se aquele instante jamais houvesse acontecido. Mas estava ali e, portanto, só poderia ser ela quem sorria para a máquina fotográfica.</p>
<p>- Acho que sim. &#8211; Respondeu, cautelosa. Realmente, não conseguia entender porque o dia se demorava tanto, estava cansada, com uma vontade irredutível de estar só. &#8211; Acho melhor terminar amanhã, padre. Já deve ser tarde, e Jonas não voltará para casa, hoje.</p>
<p>- Nós entendemos.- Repetiu ele quase num murmúrio, movendo-se desajeitado e entornando a jarra de refresco sobre uma pilha de fotografias.</p>
<p>Desceram sem conversar e, antes mesmo que Isabel terminasse de fechar a porta, ouviu um crepitar agudo de madeira envergando e partindo ao meio no andar superior.</p>
<p>Isabel acordou com uma inexpressiva melodia de cello, que atravessava as paredes e se diluía no ar quente do quarto ainda escuro e sem forma. Sentia-se doente. A cama confusa a incomodava. Os sons e gritos da rua zuniam misturados, atordoavam. Por alguns momentos, ainda de olhos fechados, experimentou a idéia de que o dia anterior não acontecera, de que, em poucos segundos, ouviria a água do banho de Jonas correndo, abriria a janela e colocaria os travesseiros no parapeito, faria a cama, despreocupada, prepararia o café, ferveria o leite e lavaria a louça com o rádio ligado, até que a mãe viesse. Seria bom. Abriu os olhos com cuidado e reconheceu o quarto. Era o mesmo. Não havia nenhuma porta nova, nenhuma passagem aberta durante a madrugada. Talvez pudesse permanecer ali para sempre, até que Jonas retornasse, a claridade difusa era agradável, macia, a música do cello quase lhe adormecia. Gostaria de poder dormir mais. No entanto&#8230; tentou desfazer a lembrança balançando a cabeça, mas a testa úmida latejava, dolorida, no entanto, tinha que abrir a outra porta. A segunda porta, que encontrara pouco antes de se deitar. Não deveria ter olhado uma última vez. As caixas estavam lá, o quarto era um quarto, enfim, mas os ruídos de tábuas e pedras prosseguiam, as paredes rangiam, dobravam-se ao meio, desmanchavam-se vivas. Poderiam ser ratos. Na verdade, desejara realmente encontrar ratos, dúzias deles, ninhadas inteiras roendo o papelão das caixas e destroçando as fotografias inúteis. Então olhara. Então abrira a porta. E, onde durante toda a tarde tivera a nova parede, encontrara uma abertura, uma passagem bem feita, em arco, dando para um corredor curto, de ladrilhos avermelhados, terminando em mais uma porta fechada. Uma outra porta. Um outro dia. Isabel deixou que o desânimo viesse, lento, derretido, enquanto se levantava com enorme dificuldade. Devia ser tarde. Parou no meio do corredor, exausta. Tinha que fazer aquilo. Era uma necessidade. Abriu a primeira porta e lá estava. Não, não havia sido um delírio doentio, provocado pelo sono. A luz do dia parecia não querer se misturar ao quarto e deslizava com timidez, quase flutuando por sobre as caixas bem arrumadas, a jarra de limonada ainda caída e, poucos passos adiante, a nova porta, brilhante, escura. Talvez estivesse trancada. Talvez terminasse em algum lugar conhecido e a casa acabasse se encontrando com si mesma, pondo fim àquele martírio. Com a horrível impressão de estar sendo obrigada a repetir cada movimento do dia anterior, Isabel levou a mão ao trinco e abriu. Não chegou, mesmo, a se surpreender. Talvez apenas não esperasse encontrar aquela espécie de saleta, bem mais ampla que a outra, sextavada, bastante larga, pintada em um bonito tom marinho de verde e, era realmente cansativo, com mais uma porta e três janelas. Janelas! Era o primeiro sinal de realidade que a casa lhe oferecia. Deveriam abrir para algum lugar, poderia ver o que mostravam, lá fora. Poderiam deixar o dia invadir a sala. Sem procurar pensar muito, Isabel soltou o ferrolho lubrificado e abriu as duas folhas num só golpe, prendendo a respiração. Nada. A janela terminava apenas onde deveria, é claro. Abria sobre o jardim, mostrava a calçada, a rua, as casa vizinhas, imóveis e pacíficas. Algumas pessoas passavam. Era, mesmo, uma rua calma, cheia de árvores. Talvez devesse gritar, pedir ajuda. Todos compreendiam, não? Estava sozinha, Jonas não viria almoçar. Debruçou-se sobre o parapeito. Se não olhasse para trás, era como se estivesse em sua casa, em sua antiga casa. O céu começava a se carregar e prometia chuva para o final da tarde. Seria bom, o jardim tinha uma aparência seca, descuidada, e ela não era capaz de se lembrar da última vez em que o regara, ou se um dia havia chegado a regá-lo. A sinfonia do vizinho prosseguia, irritava. Não entendia porque tudo teimava em permanecer normal enquanto sua casa crescia a cada minuto, paredes e portas se multiplicando em epidemia, tetos aparecendo durante a noite, janelas se abrindo. Talvez precisasse chorar, mas não sabia como isso ajudaria. Voltou-se para dentro. O dia se espalhava pelo assoalho encerado. Quem sabe não seria bom colocar aquele tapete velho, ali. Não estava muito conservado, mas tinha uma cor neutra, combinava, e aqueceria um pouco a sala no inverno. Se sua mãe a visitasse naquela manhã, as duas poderiam mesmo se divertir tentando encher aquela sala com coisas antigas e inúteis. Então reparou na porta que havia esquecido.</p>
<p>Era como ter alguma dor forte. Toda a vez que tentava fazer algo, limpar um pouco a casa, ouvir o noticiário, lavar alguma roupa, enxergava a porta não revelada à frente e parava. Era preciso estabelecer algumas regras. Aquilo não poderia durar muito tempo, deveria parar em algum lugar. Poderia simplesmente ignorar tudo, era uma idéia. Poderia vedar a última porta com algumas tábuas e pregos, ocupar a sala vazia e se esquecer de tudo. Ou, então, iria abrindo todas as que ainda surgissem, uma a uma, portas, janelas, alçapões. Era importante que conhecesse a própria casa, mesmo que fosse o deserto infinito de corredores e salões em que parecia estar se transformando. Jonas não viria para o jantar e, portanto, ela tinha algum tempo para desvendar o que quer que a casa produzisse. E, talvez, acabasse por encontrar mais um banheiro, fazia tanta falta, ou ainda uma lareira. Em algum lugar a casa pararia. Então desenharia mapas, numeraria as entradas, desenrolaria um cordão para que não se perdesse, mas continuaria a ser sua casa. Era, sim, era o que deveria ser feito. Abriu. Estava um pouco escuro, mas era, em definitivo, uma escada. Degraus lisos de granito descendo alguns lances e dobrando à direita. Isabel hesitou por algum tempo, tentando se lembrar se havia deixado a máquina de lavar roupas ligada. Então começou a descer. Primeiro, devagar. Depois, acostumando-se aos degraus, com um pouco mais de firmeza. Lembrou-se de Jonas, mas quando ele voltasse, com certeza saberia onde encontrá-la. Estava em casa.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/fdomeniconi.wordpress.com/35/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/fdomeniconi.wordpress.com/35/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=35&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sísifo</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 12:38:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Era ódio, afinal, e nem poderia ser diferente, uma vez que Raquel lhe avisara de que a outra era uma pessoa insuportável e as duas haviam se medido com olhares agudos, logo no início da festa, e mutuamente se detestado antes mesmo que chegassem a ser apresentadas por Artur, tão ingênuo, será que não percebia [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=29&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era ódio, afinal, e nem poderia ser diferente, uma vez que Raquel lhe avisara de que a outra era uma pessoa insuportável e as duas haviam se medido com olhares agudos, logo no início da festa, e mutuamente se detestado antes mesmo que chegassem a ser apresentadas por Artur, tão ingênuo, será que não percebia por que terreno estava caminhando? Mas Artur não era mais um problema seu, não contava, embora houvesse sido impossível não deixar de perceber como parecia ficar cada vez mais bonito com o tempo, enquanto ela, muitas vezes, se sentia ressequida, amarga e, no entanto, eram somente fases, momentos rápidos, quase sempre inexpressivos, que terminavam em um choro solitário e mais uma foto do álbum de casamento rasgada em dezenas de pedacinhos frustrados. Sim, tentava se libertar do passado, mas eram inevitáveis os reencontros, os amigos comuns, freqüentavam ainda os mesmos bares e ainda pediam as mesmas bebidas, Gin Fizz, a cabeça começava a se tornar vazia, doce, a vontade como que escorria pela garganta, aquecendo o estômago e, de repente, ela e Artur terminavam na ponta da mesa conversando por horas seguidas, apesar da música alta e das indiretas maliciosas de Jonas, bobagem, apenas se falavam, conversavam sobre coisas sem a menor importância. No entanto, ela, como se procurasse alguma passagem, uma brecha, algo dividido que não fosse o copo de gin borbulhando sobre a mesa. Era inútil, é claro, e, por vezes, chegava mesmo a imaginar que apenas se conheciam, que se encontravam por uma nova primeira vez, a tonteira ajudava e acabava por possuir a clarividência de um futuro onde já conhecesse todos os erros e fosse, assim, capaz de evitar dali em diante toda a seqüência de desencontros e discussões noturnas que haveriam mesmo de tornar sua vidas num inferno. Podia até se sentir bem mais leve pensando assim, sem se dar conta de que era uma fantasia estúpida e até infantil, que se quebrava sempre com Artur arrematando o último gole, acendendo um cigarro e pedindo desculpas para sair antes do final da noite, e as noites teriam final?, provavelmente já estava se envolvendo com a outra, não deveria chamá-la de outra, era como se significasse algo e sabia que não, que mais nada, que passado, mas não podia se resistir e foi assim que tomou conhecimento a seu respeito: Artur falou a Jonas, Jonas a Raquel e Raquel lhe contou, sem graça, como se denunciasse uma traição. E afinal era quase isso, tanto que acabou se embebedando naquela mesma noite e dormiu no sofá da sala, cansada, derrotada, para acordar somente na tarde do dia seguinte, a cabeça latejando, o braço dolorido por haver se deitado em uma posição incômoda e uma sensação horrível de que alguma coisa havia lhe sido arrancada por inteiro, deixando um buraco na boca do estômago. Nos primeiros dias, como se estivesse morta, um desânimo vago em sair para o trabalho, distrações inúteis, cigarros queimando até o final no cinzeiro e Raquel, arrependida, não vai atender o telefone? Sabia que devia reagir, e, afinal, já não havia pressentido algo, uma certa ausência, muito antes de Raquel haver lhe contado? Fosse como fosse, todos perceberam sua entrega e devia estar ainda transparente, até mesmo quando resolveu voltar a freqüentar o bar e reencontrar todos, para se manter distante, um pouco perdida, o gin ficando pela metade, morno, ao lado de uma pilha de cigarros fumados sem intervalos. Depois, bem devagar, realmente uma cura, foi retornando à normalidade, ou o que quer que se chamasse aquilo, tentando se desfazer do passado, não era nada fácil, mas necessário, e sabia que não voltaria à depressão novamente, por isso se demorando para reagir, repisando e mastigando a estória toda, até sair ilesa. Se é que se saía ilesa, talvez alterada, sim, com toda a certeza, que então enxergava outras coisas, sentia as diferenças, conhecia os medos, e mesmo quando viu Artur pela primeira vez, depois, apenas depois, evitava dizer depois do que, mesmo quando o viu, foi como se encontrasse alguém desconhecido e, apesar disso, odiou-se por achá-lo tão interessante. Vinha sozinho, é claro, mas até quando poderiam impedir um encontro? Não muito, sabia disso, e logo a festa de fim de ano, a casa de Raquel e Jonas, não poderia deixar de ir. Na verdade queria, curiosa: ou era idêntica à outra ou seriam tão diferentes que o contraste chegaria a machucar, como machucou, mesmo. Chegou cedo, tão cedo que Raquel ainda estava no banho e Jonas, compreensivo, preparou-lhe uma bebida para relaxar, mas acabou servindo um Gin Fizz inconsciente e ela sentiu vontade de rir, que bobagem, o que poderia sair errado? Mas era inquietante. Artur sabe que eu venho? Sabe, Raquel quase mais nervosa, dividida entre os convidados que chegavam, a casa se enchendo e, talvez por isso, talvez pelo gin, um alivio, uma tranqüilidade que com certeza reverteria como um tapa, um murro seco, quando os dois entrassem pela porta. E foi bem assim, uma confusão, uma onda que a deixou totalmente sozinha no meio da sala, apesar do barulho e das conversas, mas era apenas ela que existia naquele instante, e Raquel, muito hábil, desorientando os dois para que toda a tensão se dissipasse naturalmente, e a outra, afinal, parecia tão mais jovem, era ridículo sentir-se assim tão diminuída, à deriva, não era nada disso e, no entanto, como evitar? Ao lado de Artur, a outra ria, não parecia preocupada, e nem deveria, mas soava falso, tudo parecia falso e ele tentando estar tranqüilo, correndo o olhar por entre tanta gente e rindo, também, mas nervoso, sobressaltado e Raquel, provavelmente arrependida de ter insistido tanto, mas era uma farsa e ela tinha que representar sua parte, todos tinham, só não contava com a apresentação, murcha, e com o &#8220;Artur me falou tanto a seu respeito!&#8221;. Desconcertava, por que ele falaria? e o quê? Isso implicava tantas coisas, escondia um milhão de significados, a maior parte traiçoeiros, verdadeiras armadilhas onde o principal era imaginar que ele não a havia esquecido ainda, o que era perfeitamente possível, ela havia? Raquel estava certa, a outra era mesmo uma pessoa insuportável, tentava sobressair-se o tempo todo e conseguia. Era mesmo ódio, afinal, e, até o final da festa, festa?, haveriam de cruzar olhares carregados, como se apontassem facas, e não fosse Raquel, Jonas e o gin, pegaria sua bolsa no quarto e sairia em seguida, sem ser percebida. O que seria muito mais sensato, porque depois, à meia-noite, com todos aqueles gritos e o champanhe caindo no tapete, sentiu que devia cumprimentá-los, por que não?, e a outra, muito sorridente, mas a seu ouvido, num sussurro raivoso que jamais esqueceria, &#8220;morra ainda este ano!&#8221; e todos imaginaram que chorava pela emoção da passagem ou, Raquel, pela tensão que terminava quando os dois se despediram e saíram por onde nem deveriam ter entrado. Então depois, nem conseguia acreditar, nas primeiras noites, madrugadas abafadas de janeiro, acordava encharcada de suor e achava, tinha a certeza de que morreria antes do dia amanhecer, seca na cama desfeita, amaldiçoada, e tudo isso seriam besteiras, mas não se sentia encorajada a revelar a ninguém o que ouvira, nem a Raquel, que só insistia em querer saber porque andava tão abatida e inventou um problema digestivo absurdo que era puro pavor, nem parecia mais a pessoa lógica de sempre, que droga! A outra deveria estar rindo, naquele instante, era ódio, sim, não podia negar, e estaria rindo porque podia adivinhar, podia saber o que ninguém mais sabia, que ela desaparecera de uma vez dos amigos e ficava todas as noites trancada no apartamento, encolhida na poltrona e escutando Borodin bem alto para que não percebesse a morte chegando. Ingenuidade, mas ficou mais de um mês entregue à horrível impressão da última noite até que então, de repente, com uma raiva redobrada, como podia? como conseguia afundar-se assim? Mas na verdade sabia que o que a erguia era a notícia de que a outra havia se mudado para o apartamento de Artur, Raquel demorando-se dias para contar de uma vez, dando voltas e voltas, preparava-a, mas era de se esperar e compreender. Era mais ódio ainda, uma sensação de vazio e derrota se cristalizando na garganta, não deveria ter se afastado tanto. Ou tanto fazia, porque teria sido o mesmo, inevitável, e para isso teria servido o &#8220;morra!&#8221; da última noite, deveria sentir-se ameaçada, e era insano, mas, Deus!, o que Artur teria lhe dito para que atacasse assim com tanta rapidez? Só que agora havia perdido, e nem chegara a lutar de verdade, doía muito, e teve que se segurar, parecer a mesma, até que Raquel saísse, para então começar a chorar e rasgar as fotografias que restavam. Depois, ainda na mesma noite, chovia muito, e a garrafa de gin, puro, já estava pela metade, depois, uma idéia, menos que isso, uma espécie de vontade, quando bebia pensava fácil, um pensamento rápido, mas muito confortável, bobagem. No entanto, quando se deu conta, imaginava a maneira mais fácil de vê-la morta. Era inocente, uma brincadeira que lhe trazia uma agradável inquietação, um prazer inútil, imaginá-la sufocando um de seus irritantes risos ainda na garganta, talvez Artur sofrendo um pouco, alguns dias, mas logo esquecendo, afinal, não havia falado tanto a seu respeito? Logo voltaria ao Gin Fizz, sozinho, mas desta vez haveria de ser diferente e então, uma semana depois, no supermercado, surpreendeu-se revirando uma caixa de raticida nas mãos, quase inconsciente e, assustada, largou-a de volta na prateleira com a impressão terrível e nítida de que alguém ia lhe perguntar &#8220;quem a senhora pretende matar?&#8221;. Acabou deixando o carrinho no corredor e saiu depressa, o rosto ardendo, porém à noite retornou e, quando chegou em casa, guardou os pacotes e ficou horas diante da embalagem alaranjada sobre a mesa, um cigarro após o outro. Desconhecia-se, mas aquilo a atraía, era novo, esquecia-se de Artur e as culpas pareciam se esfarelar, terminavam em nada, restava apenas saber como, nunca havia envenenado ninguém, não deveria ser difícil e, de repente, percebeu que não a preocupava nem um pouco a possibilidade de ser descoberta, quase queria isso, era ódio mesmo, tão perigoso e, no entanto, começava a gostar mais e mais da idéia, tanto que pouco dormiu, imaginando, e, só no meio da madrugada, como podia ter esquecido?, imperdoável, lembrou-se de que Artur detestava chocolates. Porque ele, sim, ele deveria ser poupado, ele não, nunca poderia ser&#8230;exterminado, a palavra como que dançava em sua boca, oleosa, e o dia que não amanhecia! Mas antes mesmo das nove já havia avisado a uma Raquel desconfiada que se sentia indisposta, nada demais, uma dorzinha de cabeça irritante e, enquanto falava ao aparelho, abria com cuidado a caixa de bombons sobre a pia, chocolate meio amargo e recheio de licor de amêndoas, tão bonitos nas toalhinhas de papel rendado, embrulhados em celofane amarelo, quase comeu um. Deveria ter comprado duas caixas, uma para devorar sozinha, enquanto a outra se contorcia em dores fatais e caía morta com um fio de sangue e chocolate escorrendo pelo canto da boca. O pensamento deliciava, mas tinha muito o que fazer, um trabalho delicado, frágil, abrir em cada um deles um buraquinho minúsculo com a ponta da faca, o calor ajudava, e colocá-los com muito cuidado em xícaras e copos para deixar escorrer o licor, devagar, um líquido grosso e dourado, de cheiro quase enjoativo, pingando vagaroso enquanto ela abria o veneno, assustada, quanto deveria colocar para que não houvesse erros? De repente rindo, ao se lembrar da mulher no supermercado, &#8220;por que não leva uma ratoeira, também?&#8221;, e um pânico repentino, &#8220;não, não é necessário&#8221;, agora parecia muito engraçado, mas os bombons já estavam vazios e, enfim, não havia dado mais que meio copo de licor, pouco a pouco se tornando turvo com o pó acinzentado que misturava com uma colher de chá, precisava jogá-la fora, depois, e depois?, talvez ela nem comesse, não gostasse de chocolates, também, ou pressentisse a vingança venenosa no gosto amargo e cuspisse os pedaços sobre o ombro de Artur. Não podia sequer pensar naquilo e era tão complicado colocar o licor de volta com um pequeno funil de plástico, que acabou se esquecendo, às vezes entupia, seria muito veneno? que fosse, metade acabava escorrendo, mesmo, e já passava do meio-dia quando aqueceu a espátula e tampou os furinhos com um pouco de chocolate derretido, perfeito, só que a cabeça parecia querer estourar e, como fazia calor!, a roupa grudava nas costas e pescoço, faltava ainda tornar a embrulhá-los, quase com carinho, e era carinho, sim, só que pelo trabalho, pela finalidade, então tomaria um banho e tentaria relaxar um pouco, um banho frio, forte, a tarde já havia começado a cair e entrava pela vidraça do banheiro com uma absurda suavidade, um pouco de silêncio demais. Ao sair, deparou-se com a caixa refeita e preparada para ser enviada, nenhum sinal, nada que revelasse seu conteúdo mortal, era ódio, sim, só que parecia um grito sobre a mesa, talvez impressão, quem sabe um pouco de gin não ajudasse, estava cansada, o dia havia sido difícil. Mas não era somente isso, então, o que ainda a incomodava? Não, não era nenhuma culpa, não havia remorsos e, de repente, ali estava, mas queimava e não havia enxergado antes, era ódio, é claro que era, mas estava impotente e, sem perceber, desembrulhava a caixa de bombons, morra ainda este ano!, havia se impressionado tanto e tinha se refugiado naquilo, só que era inútil. Tudo o que podia retornar eram as noites no bar e as brincadeiras sem graça de Jonas e isso, sabia bem, pouco durava, pouco havia durado das outras vezes, tantas, e no entanto já quase dez anos que ficava aguardando, o quê?, todos a cercavam e ficavam à sua volta e, sem querer, desembrulhava um bombom, mas sentia o choro chegando e se entregava, irresistente, Raquel já batia à porta com força, não faça isso!, e abrindo um por um, ia esmagando-os nas mãos, quantas vezes já havia feito isso?, o caldo açucarado e assassino escorrendo por entre os dedos e pingando na mesa, teria que limpá-la antes de jogar os bombons no lixo mais uma vez, chorando muito, era tanto ódio, mesmo, morra você, cadela!</p>
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		<title>Para quem quiser ouvir a trilha sonora sugerida (e ouvida enquanto eu escrevia)&#8230;</title>
		<link>http://fdomeniconi.wordpress.com/2010/01/24/para-quem-quiser-ouvir-a-trilha-sonora-sugerida-e-ouvida-enquanto-eu-escrevia/</link>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 23:01:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Com certeza a música é mais curta que o conto, mas transmite a atmosfera&#8230; Clique com o botão direito para abrir em outra guia/tab, senão você vai sair do blog http://www.youtube.com/watch?v=gr7B8Z6Ov3E<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=21&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com certeza a música é mais curta que o conto, mas transmite a atmosfera&#8230;</p>
<p>Clique com o botão direito para abrir em outra guia/tab, senão você vai sair do blog <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
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	</item>
		<item>
		<title>Sereias, o mais recente&#8230;</title>
		<link>http://fdomeniconi.wordpress.com/2010/01/24/sereias-o-mais-recente/</link>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 22:57:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[  Sereias  “Inquieto é o nosso coração, até quando repousa em Ti”. Santo Agostinho (Trilha sonora sugerida: Sirens, by Mythos) Primeiro conheceu Amália e foi fácil, afinal, vizinhos que eram e dado seu costume de se pentear no quintal dos fundos, debaixo da goiabeira, enquanto ele estudava Santo Agostinho e ouvia seu cantarolar discreto. Quase [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=19&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<h1>Sereias</h1>
<p style="text-align:right;"> “Inquieto é o nosso coração, até quando repousa em Ti”.</p>
<p style="text-align:right;">Santo Agostinho</p>
<p>(Trilha sonora sugerida: Sirens, by Mythos)</p>
<p>Primeiro conheceu Amália e foi fácil, afinal, vizinhos que eram e dado seu costume de se pentear no quintal dos fundos, debaixo da goiabeira, enquanto ele estudava Santo Agostinho e ouvia seu cantarolar discreto. Quase podia escutar o roçar caprichoso da escova contra a cabeleira negra, gesto e canto fazendo da sombra um lugar ainda mais fresco, enquanto os degraus da escada da cozinha arrebentavam ao sol e ele sabia ter que entrar logo mais. Das vizinhas sabia apenas serem três irmãs, a mais velha, que nunca vira, Amália, do quintal, e a menina de improváveis cabelos avermelhados que já observara da janela. Gostava de encontrar o pentear todas as manhãs; era quase uma presença obrigatória, parte da rotina. Gostava de compor uma memória antecipada com aquele momento, algo para levar consigo antes que deixasse tudo e partisse de vez, sem volta. Era um jogo seu; silencioso. Sempre que algum gesto, som, cheiro ou palavra o ameaçavam pelo prazer simples, pela felicidade gratuita, e o atraíam para a deliciosa e mundana vida terrena, fazia deles uma memória: cerrava os dentes e forçava aquele momento lembrança adentro, aterrorizado com a possibilidade de se esquecer dali um mês, um ano, amanhã, soterrado em sacrifícios e liturgias. Era como quando saía pela cozinha, livro debaixo do braço, e antes de pisar a terra roxa, trazia da infância uma saudade infinita do quintal e, somente para se certificar, pisava o solo com força, dizendo a si mesmo: quero me lembrar deste passo, deste chão, quero que este minuto fique guardado em mim. E ficava. Era fácil construir lembranças. Bastava viver com intensidade.</p>
<p>Assim, Santo Agostinho e Amália eram agora parte do quintal, dos pés de gengibre que a mãe plantara, do riachinho que corria lá embaixo, da bananeira que nunca dera fruto bom, da amoreira que manchava a roupa, dos ruídos que vinham da cozinha e do sol ardido que se alastrava feito mato e tornava o canto da vizinha ainda mais nítido. Nada além daquilo; era apenas o que queria, logo deixaria tudo e seguiria de vez para o seminário, novas paredes, novos sons e sombras sem perfume de goiaba. Seria como um navegante partindo para um rumo desconhecido, então criava lembranças para que trouxesse na sola dos pés um pouco do cheiro de sua terra e na pele um pouco do tostado de seu sol. Ou era isso o que pretendia, porque às vezes, mesmo criadas e domadas, as memórias eram traiçoeiras e ele acabava largando o livro aberto, querendo saber se aquele era ele mesmo, ali, estudando, ou se também havia inventado a própria vida e se mantinha clandestino na própria nau. Era quando a voz de Amália parecia mais forte e a canção, ainda mais doce; era quando o quintal o abraçava, morno, quando desejava saber quem era, se estaria certo, se&#8230;? Tudo sempre muito passageiro, na maior parte das vezes era um tilintar de louça na cozinha, uma palavra dita pela mãe em um tom um pouquinho mais elevado, ou mesmo um esvoaçar mais brusco dos lençóis anilados no varal e pronto! estava de volta. Gostaria apenas de saber se aquele porquê ficaria sempre por ali, à sua volta, a única lembrança que jamais criara, seu único oponente naquele jogo solitário.</p>
<p>Mas nem mesmo isso teria evitado o som da flauta, uma surpresa, quase um medo, que se iniciou sem avisos, entre uma página e outra. Logo percebeu que fazia parte de tudo, tinha de ser, porque a voz de Amália acompanhava a música soprada, duplicava as notas e tudo se elevava misturado à própria luz do dia. Foi então, talvez, que entendeu pela primeira vez o sentido mais íntimo da palavra reverberação. Como tudo o mais naquele dia, também teve que estilhaçar a rotina antes que o novo começasse a governar o mundo por si só, e assim se aproximou do muro. Sem espanto, quase sabia, mas era a irmã de cabelos de cobre quem tocava a flauta, enquanto Amália cuidava dos cabelos e, sim, como que o esperava, os olhos escuros presos no exato ponto onde colocou a cabeça para ver de que se tratava. Recuar seria meninice, então ficou, mesmo quando ela abriu um sorriso e a flauta silenciou. Amália colocou a escova sobre o banco, com uma lentidão de horas, e somente a calma daquele gesto teria sido o bastante para que se emocionasse, mas ainda faltava a aproximação e a voz, ainda música, embora apenas dissesse:</p>
<p>─   Olá, vizinho&#8230;</p>
<p>Respondeu, é claro, mas espantado com a própria fala, desconhecido em si mesmo, por que tudo teimava em ser diferente naquela manhã? É claro que ela percebeu. Mas logo falavam de outras coisas, ele sobre a música, ela sobre o livro, conheciam-se devagar, aos pedaços, vizinhos talvez há pouco mais de três meses, até que Amália entendeu e perguntou:</p>
<p>─   Então vai ser padre? Tão novinho&#8230;</p>
<p>Sentiu o rosto esquentar e o momento estava preste a se tornar incontrolável quando a mãe o chamou, a voz sempre segura, e ele baixou os olhos, angustiado pela primeira indecisão. Ela apenas tornou a sorrir, mas seria melhor que houvesse desaparecido.</p>
<p>A descoberta mais desconcertante era a de que algumas memórias se construíam por si sós, sem que as provocasse, e eram as melhores&#8230; então por que não? Logo as pequenas conversas também se tornariam parte do quintal, ainda que Santo Agostinho fosse deixado de lado. Não teria a vida toda para aquilo? Além disso, era como se Amália fosse um outro livro, cheio de perguntas que ela fazia, assim inocente, curiosa mesmo, interrogações que talvez ele já conhecesse, mas tão difíceis de explicar. Sim, decidira há muito se tornar seminarista. Não, isolar-se assim não era um sacrifício, era uma vocação. Só que sentia que Amália havia interrompido sua jornada, ou então acenava um adeus, uma ou outra coisa tocando em uma inquietude que ele mal chegara a conhecer e, portanto, não sabia mesmo possuir, um desassossego natimorto. Não, repetia, não era carne, não eram os fluidos que despejava com culpa e raiva, mas era sim como se colocar despojado, sem proteção, sem quintal, sem memórias criadas, um divisor de águas, a semana anterior já parecendo uma estória contada e não um passado vivido. Ao mesmo tempo, porém, todo o resto prosseguia, manso como o riacho na borda do terreno, e sob a luz da lamparina via a mãe bordando monogramas em suas camisas brancas, encapando de couro mole seu livro de orações, montando sua vida, dia após dia, sem perceber as ondulações que o afligiam. Não que hesitasse, era afinal seu destino, seu rumo traçado, e o havia aceitado há muito, mas, pela primeira vez desde sempre, separava-se de si mesmo, e o destino não era mais seu, mas da semana passada, de antes da flauta, e então queria saber quem iria embora dali cinco dias.</p>
<p>Só conheceu mesmo a irmã mais velha, Leocádia, dois dias antes de partir, visita formal, sem graça, Amália insistindo tanto, uma sala cheia de louças e retratos, uma tapeçaria antiga de feltro na parede e uma colcha de retalhos cobrindo o sofá onde se sentou, como se sua presença ali fosse proibida. Amália em pé e a mais nova, agora possuindo um nome, Lígia, olhando da porta de seu quarto, o cabelo vermelho era quase tudo o que iluminava a casa. Era Amália quem falava, contava à irmã sobre seu destino, tão bonito, tão difícil, e Leocádia, dura e branca, parecia de gesso, a boca contraída, severa, concordava com a cabeça. Logo depois Amália desaparecia para a cozinha para fazer uns bolinhos de chuva, deixando um silêncio tão vasto como o temor que lhe mantinha os joelhos apertados um contra o outro e o olhar passeando por xícaras e antepassados, evitando Leocádia, que enfim sorriu:</p>
<p>─   Quando parte?</p>
<p>─   Depois de amanhã, respondeu depressa, quase feliz.</p>
<p>─   Está ansioso?</p>
<p>─   Muito&#8230;me preparei tanto&#8230;</p>
<p>Ela concordou com a cabeça. Ouviu a porta do quarto se fechar com um certo ruído.</p>
<p>─   Mas é tão novinho&#8230; não pode ter decidido sozinho, pode?</p>
<p>Sentia-se tão constrangido; aquela mulher gorda, pálida, ao mesmo tempo ameaçava e abraçava, parecia saber tanto, parecia ter estado ao seu lado todo o tempo, ainda menino, quando a mãe o levava para ver os anjos pintados no teto da matriz, quando lhe mostrava as imagens de santos, tão altos em seus pedestais, tanta beleza naquele sofrimento, tão sublimes na dor; depois a comunhão, o medo de trincar o corpo sagrado com os dentes.</p>
<p>─   Sempre quis isso, respondeu ele, um tanto sem convicção, quase queria perguntar “quem sou eu?” já que ela parecia saber tanto.</p>
<p>─   Claro&#8230;e faz bem em partir cedo, acrescentou, ainda não teve tempo para duvidar de quase nada&#8230;tão bonito isso&#8230;sua mãe deve se sentir tão orgulhosa&#8230;</p>
<p>Sentiu-se congelar, ela como que sabia mais, penetrava lá dentro e decerto podia ouvir o som da flauta que tocava em sua cabeça, a voz da irmã em uma música tranquila, seus medos em noites insones, mas medo de quê? Então um relâmpago de compreensão, um tanto nebuloso, mas ainda assim&#8230; temia o desconhecido, mas não aquele que estava por vir, não os corredores do seminário, as madrugadas, e sim aquele que ficava para trás, temia aquilo que ainda não conhecera, o passado interrompido, e entre amargura e medo deve ter arregalado os olhos, porque viu no rosto de Leocádia uma compaixão tão grande e o comentário, ah meu Deus, o comentário que ela jamais deveria ter feito&#8230;</p>
<p>─   Não deve se arrepender&#8230;nunca, você escolheu um caminho tão belo&#8230;tão diferente de todos por aqui&#8230;o que ficou, ficou&#8230;</p>
<p>Não fosse Amália e o cheiro de canela morna dos bolinhos, decerto iria começar a chorar ou sair correndo, mas tudo retornou a uma normalidade mansa, a conversa amenizou e até mesmo Lígia deixou o quarto.</p>
<p>─   Tenho certeza de que vai sentir saudades destes bolinhos, disse Amália, os lábios cheios de açúcar.</p>
<p>O sol do final de tarde entrava oblíquo pela janela da sala, incendiava os cabelos de Lígia, tornava Leocádia mais maternal e aumentava os olhos de Amália. Mas o que ficava?</p>
<p>Na noite seguinte, malas quase prontas, um cheirinho de água de colônia nas camisas brancas dobradas e a mãe parecendo sofrer, antecipando a distância, mas era um sofrimento santo, tão alvo quanto as camisas. Saiu à rua, insone, noite abafada, noite viva de grilos, muito tarde. Repetiu: muito tarde. Incomodava-o, agora, que quase todas as palavras lhe provocassem uma sensação de duplo sentido. Encontrou Lígia debruçada na mureta do jardim, uma das mãos enrolando interminavelmente uma mecha dos cabelos fulvos, a outra pendendo como morta sobre a grade baixa. Mal pareceu se aperceber de sua presença e afinal nem ele mesmo esperava qualquer aproximação: dentre todas as três irmãs, era aquela a que menos lhe havia falado, diria que Lígia sequer lhe conhecia. Foi então, com mais um sobressalto, quantos ainda teria que vivenciar antes de chegar ao seu porto? que a descobriu, não sorrindo, mas com uma sombra de diversão no olhar, chamando-o para junto da grade, onde o cumprimentou e atalhou:</p>
<p>─   Quando você parte?</p>
<p>Nos últimos dias, havia começado a aprender que as irmãs quase funcionavam de forma onisciente, como se compartilhassem os mesmos olhos, as mesmas palavras e, sobretudo, o mesmo semblante que guardava um segredo divertido, algo como júbilo, um prazer em saber alguma coisa a mais e deliciar-se com seu gosto adocicado.</p>
<p>─   Assim que o dia clarear&#8230; no trem das 6:40&#8230;</p>
<p>─   Pena&#8230; ─ Mas não havia tristeza. Seria compaixão?</p>
<p>─   Mas eu venho sempre que puder&#8230; ─ E sabia não serem essas as palavras a serem ditas. Odiava a cada vez um tantinho mais a incapacidade de dizer o que desejava a qualquer uma delas, o que sempre criava aquele vazio silencioso, a vontade de sumir no bafio da noite morna, enfiar a mão nos bolsos, qualquer coisa, exceto ter que ficar imaginando como continuar a conversa. Sorte sua que Lígia ajudou:</p>
<p>─   Vem cá, vou te dar um presente&#8230;</p>
<p>─   Um presente?</p>
<p>─   É&#8230; uma lembrança&#8230; pra você não se esquecer da gente&#8230;</p>
<p>Não iria mesmo se esquecer, mas entrou pelo portão que Lígia abria enquanto lhe falava, não sem certo receio, não sem certo desconforto, e foi quase por acaso que perguntou:</p>
<p>─   Suas irmãs estão lá dentro?</p>
<p>─Não&#8230; Saíram, a noite esta muito abafada, não havia refresco que bastasse&#8230; ─ E então sorriu, talvez pela primeira vez. A casa estava morna, recendendo a capim limão, uma única vela na sala trazia os retratos e bules para perto e jogava-os de volta de repente, com força. Parou quase junto à porta, mas Lígia o puxou com uma gentileza gostosa em direção a seu quarto:</p>
<p>─   Vem&#8230;</p>
<p>Seguiu-a, e não poderia dizer que tinha medo; ou antes, tinha, mas naquele exato instante era uma espécie de angústia, de desconcerto, como se violasse uma casa desconhecida, como se de repente se encontrasse sozinho em um local ao qual não pertencesse, mas cedeu e descobriu um quarto repleto de bonecas de porcelana e pano, criaturinhas de olhos espantados cobrindo paredes e cama, braços esticados, sorrisos congelados, roupinhas engomadas. Estancou, fascinado, enquanto Lígia abria uma gaveta e lhe estendia a flauta, um laço de fita púrpura amarrado a uma das pontas. Tomou-a com cuidado, surpreso, mesmo:</p>
<p>─   A flauta&#8230; mas eu não posso aceitar&#8230;</p>
<p>─   Claro que pode. É minha&#8230;</p>
<p>Levou-a inconsciente aos lábios, sentiu a frieza do metal ao toque, mas era uma frieza que abria possibilidades de calor, de sons, só não se atreveu a soprá-la, com receio de estragar o efeito pela própria inexperiência, no que foi auxiliado por Lígia, que empurrou devagarzinho o bocal de volta e aproximando o rosto junto ao seu disse:</p>
<p>─   Sopra devagarzinho, assim&#8230;─ E soprou para mostrar como era, mas cantarolando uma primeira nota, e depois outra, em uma espécie de efêmero pressentimento de voz, uma canção que desaparecia antes mesmo de se sustentar. Sentiu o hálito fresco chegando até junto de sua boca, quase uma brisa viva, as pernas amolecendo, deixando-se levar, a flauta caindo no tapete fofo e, logo depois, ele mesmo, afundando-se entre bonecas sobre a cama macia, sentindo, agora, que as notas lhe eram instiladas diretamente boca adentro por uma outra boca, morna e úmida como a noite e grudada à sua, os pulmões se enchendo de música, o corpo carregado por bracinhos de pano e papel machê, enquanto Lígia e os cabelos em chamas se desdobravam e cresciam em um corpo leitoso e proibido, seria? que lhe punha igualmente desnudo em todos os sentidos possíveis, já que descobria ser carne e febre, um desespero tão bom, uma violência calculada e, então, quando afundou sobre a pele úmida de Lígia e sentiu-lhe as entranhas, soube finalmente o que acontecia e quem realmente era e porque atravessara tantas noites tocando a si mesmo e recolhendo sua própria alma viscosa nas mãos. Enquanto se entregava aos movimentos do próprio corpo, sem mesmo saber porque fazia aquilo, sentiu pavor, sabia estar prestes a perder algo, a explodir naquele tremor, e parte de si mesmo ficaria ali, entre brinquedos, para sempre. Dividia-se entre querer saber como seria o término daquele maravilhoso sofrimento e nunca ter que parar; gritava baixinho, sentia as unhas de Lígia cortando suas costas enquanto lhe mordia o ombro, sem compreender a própria selvageria; tudo, agora, era música, frenética e sem sentido, as notas correndo pelo quarto fervente; e foi absolutamente sem esperar que se sentiu desmanchar em si mesmo, tão sublime, tão bendito, tão belo quanto o martírio dos santos, os mistérios gozosos&#8230; agonizou por alguns instantes e deixou-se cair sobre Lígia, subitamente iluminado e, todavia ainda humano, senão finalmente.</p>
<p>Teria ficado ali por muito tempo, drenado, os braços abertos em cruz, o suor formando-se na testa e rolando demorado até o lençol, feito os santos óleos, mas descobriu então que a revelação era impossível: <em>se sabia quem realmente era, então não poderia ser mais ninguém</em>. Num murmúrio de arrependimento, voltou-se ao ouvir a porta se abrindo e se deparou com as duas irmãs paradas junto à entrada do quarto leitoso, Leocádia condenando-o sem sequer expressar qualquer sentimento vivo no olhar e Amália sorrindo em compaixão, ambas em um silêncio que pulsava e latejava em suas próprias têmporas enquanto Lígia, ainda mais pura do que antes, como podia? deixava o leito de feltro e olhos de vidro e, sem se importar com a nudez aliviada, se punha ao lado das outras duas, o triângulo de fogo entre as pernas, ameaçando como uma fogueira infernal. Demorou um pouco para entender e reagir a tudo aquilo, mas logo se pôs a recolher as peças de roupa espalhadas diante da imobilidade das três irmãs traiçoeiras; ou traiçoeiro seria seu próprio sangue, sua própria alma, agora para sempre marcada por aquele conhecimento; sem retorno, com um futuro que jamais poderia deixar a sombra daquele quarto de brinquedo. Já em seu quarto, ainda o mesmo quarto de horas atrás, o último quarto, agarrou depressa as malas e o pacote de goiabada caseira, olhou a mãe ainda dormindo e deixou a casa apressado, os passos ressoando nas pedras do calçamento de uma cidade adormecida e refrescada pela madrugada que subia; atordoado e ao mesmo tempo onisciente, como um navegante que se perde no nevoeiro sem deixar de pressentir em que direção se encontra seu verdadeiro porto, a verdadeira pátria que deixou, de uma vez por todas, para trás.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Daqui de cima, quem pode afirmar?</title>
		<link>http://fdomeniconi.wordpress.com/2009/12/11/daqui-de-cima-quem-pode-afirmar/</link>
		<comments>http://fdomeniconi.wordpress.com/2009/12/11/daqui-de-cima-quem-pode-afirmar/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 19:21:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>fdomeniconi</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[(Data aproximada: final dos anos 90) Daqui de cima, enfim, embora eu ainda pensasse ser pouco confortável o sótão todo cheio de tralhas, mas Artur tinha razão, e mesmo que precisássemos nos arrastar pelo chão empoeirado para chegar até a janela, tínhamos uma visão bastante boa do interior do sobrado, em especial da sala de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=13&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Data aproximada: final dos anos 90)</p>
<p>Daqui de cima, enfim, embora eu ainda pensasse ser pouco confortável o sótão todo cheio de tralhas, mas Artur tinha razão, e mesmo que precisássemos nos arrastar pelo chão empoeirado para chegar até a janela, tínhamos uma visão bastante boa do interior do sobrado, em especial da sala de visitas, toda carregada de tapetes e bordados velhos e um enorme gato de porcelana que me maravilhou desde o começo, três ou quatro dias antes, uma espécie de brincadeira de verão, mas afinal de contas eu tinha mesmo muito pouco que fazer com Elisa e as crianças fora e então Artur, fique alguns dias comigo, tenho algo inacreditável para te mostrar, e tinha mesmo, a garota do sobrado em frente era realmente demoníaca e falei isso logo na primeira tarde, mas Artur contestou, um anjo, e quem saberia dizer ?, nunca chegaríamos a concordar, a não ser com o fato de que algo estava errado, saltava, e não eram os cabelos compridos, muito pretos e pouco prováveis, ou o rosto completamente limpo, com toda a certeza cheirando a sabonete neutro, mas sem dúvida alguma a presença profana da mãe, enorme e úmida, com absurdos cabelos alaranjados que eu em absoluto não compreendia, eram dela, decerto, que vinham todas as franjas e almofadas brocadas, quase tudo um escândalo, uma coisa única e sem forma por onde a menina se movimentava, muito branca e nova, uma contradição áspera que as perversões Artur não deixaram passar em silêncio: se odeiam, me disse entre dois goles de café, a filha é uma traição, mas, de qualquer forma era impossível entender os gestos assim serenos com que arrumava a casa todas as manhãs, repetindo-se, e limpava uma série de animaizinhos duvidosos de vidro e Murano com uma flanela, devagar, quase distante, sem se importar com o ruído seco da faca que a mãe usava para limpar peixes sobre a mesa da cozinha, o que Artur dizia ser quase cruel. E não deixava mesmo de ser, grosseiro, mas quase nunca acabávamos tendo tempo para isso já que ela sempre terminava por desaparecer por quase uma hora para retornar com os cabelos escorridos, ainda molhados, e ficar escovando-os à janela com uma paciência ansiosa e pouco dissimulada. Era o momento em que corríamos maior perigo, embora não importasse muito e aquele olhar de geleiras derretidas, fresco e avermelhado de sabão, por vezes cruzava com o nosso, sem se deter, mas o bastante para que contivéssemos a respiração e Artur deixasse escapar um breve gemido denunciador. Era belo, no entanto, e ao mesmo tempo cruel que a mãe acabasse quase sempre por se colocar a seu lado, virtual, violando sua imagem quase santa, e apontasse para as pessoas na rua, dizendo coisas com uma voz que forçosamente imaginávamos venérea. Após os primeiros dois dias comecei a me perguntar se seria somente aquilo, mas Artur, calma, o melhor deve começar esta tarde, uma quarta, e de fato foi logo após nosso almoço rápido de sanduíches e cervejas, enquanto observávamos quase com inconsciência o contorno de planície de sua nuca e ombros, movimentando-se com uma suavidade perturbadora ao destrinchar os pedaços de peixe enquanto comia, as costas voltadas para a janela sempre aberta da cozinha. Logo depois, não compreendi direito a movimentação exagerada da mãe e filha ou o sorriso prévio de Artur, as duas remexendo objetos inúteis, ajeitando flores no vaso e borrifando alfazema nas almofadas espantosas, até que percebi a figura admirável do velho à porta, batendo timidamente enquanto ela desaparecia para dentro e a mãe acomodava os enormes peitos antes de atender, pretendendo um sossego caseiro impossível e sorrindo como uma flor assassina para o homenzinho, impecável em um terno preto brilhado pelo tempo e tinturarias, os cabelos brancos escassos debaixo de um chapéu de feltro que pensei nunca mais fosse ver e Artur, de novo, repare bem agora. O contraste era mesmo obsessivo, e o velho como que diminuía, absolutamente imobilizado, apesar de que nos olhos se abrisse qualquer forma de avidez apagada, que terminava no colo sorridente e engrossado com talco barato da mãe, de repente indefesa e fechando a porta que desejávamos transparente, embora pouco depois, Artur já preparado, eu me espantasse em ver o homenzinho se acomodar no sofá, as pernas muito juntas e firmes, as mãozinhas passas agarradas ao joelhos numa timidez ancestral, quase digna, mas traída pela inquietação móvel do pescoço e da cabeça de passarinho, enfim sossegada pela aparição intocável da menina, era mesmo impressionante, branca e terrível. Deixei, com toda a certeza, me revelar, o que Artur percebeu sorrindo, esticando-me mais uma lata de cerveja, não é perverso?, mas era mais do que isso, grotesco e silencioso, a mãe trancada na cozinha com uma chaleira de água ao fogo e o velho retorcendo os dedos abissais, tenso, indecente e, sem sequer erguer-se, acostumado ao ritual inexpressivo de vê-la sentar-se a seu lado após um beijo incompleto na testa coberta de manchas, Artur inexplicavelmente irritado: a mãe sabe bem o que faz, mas eu não podia concordar e toda aquela inocência estupidamente bela me incomodava, rescendia a ódios distantes, a paixões agravadas e afogadas nos próprios líquidos maternos, mas toda a casa de repente parecia desaparecer e se iluminar na fumaça violenta do café, trazido no tempo correto e servido em xícaras trêmulas com biscoitinhos em forma de coração, Artur: não dá, é preciso fazer alguma coisa, e enquanto a mãe saía, detestável, para começar a limpar uma enorme peça de carne, percebi que ele abria uma catálogo telefônico e desaparecia em seguida, ignorando meus avisos. Tornei à janela, o rosto quase colado ao assoalho sujo, num pânico injustificado e sem controle, sentindo as pulsações rápidas do sangue junto à testa molhada e contra o peito estendido, temendo quebrar um silêncio inexistente que me jogava sala adentro, descoberto, sem defesas, ouvindo desonestamente o telefone tocar e a mãe largar o enorme facão, enxugando em um avental imaculado as mãos úmidas de sangue bovino, para atender e, espantada, estender o aparelho para o velhinho, agora desajeitado, flagrado em seus mais obscuros vícios e perdições temporais e, no entanto, procurando impor-se, através da própria sobriedade de roupas e limitações linfáticas de gestos, à quietude sonora e imóvel das duas mulheres, a menina, Artur precisava ver isso, a menina avermelhando, sem a timidez que eu desacreditava, mas descoberta premonitoriamente em uma armadilha reversa, congelando-me na escuridão protetora do quartinho de Artur ao erguer-se devagar, graciosa, e colocar-se à janela, impossível, mas consciente de que éramos nós, acusadora, e decerto iria me lançar um olhar ameaçador, mortal, se o velho não retornasse de repente e esboçasse uma desculpa qualquer sobre o que nem eu, nem as duas mulheres viríamos nunca a saber, mesmo porque Artur em seguida, mudo ou até mesmo um pouco envergonhado: só apressei um pouco as coisas, porra, e não pude imaginar como, senão que lá embaixo tudo retornava a uma normalidade quase cristalizada e, enquanto a mãe voltava aos facões mórbidos de sua selvageria, os dois continuavam o diálogo pálido do namoro mais que improvável, ele retirando do bolso interno do paletó uma caixinha embrulhada em papel prateado e parecendo aplacar um tantinho a raiva súbita de invadida, que a tornava ainda mais bela depois da intervenção do chamado de Artur. É claro que era mais um bichinho de vidro transparente, provavelmente um peixe, com minúsculos olhos vermelhos, acompanhado de um levantar-se muito reservado e uma despedida breve que a mãe veio retribuir perfumada de tempero, coentro e cebolas roxas, liberando-nos assim para um banho cansado, uma garrafa de vinho tinto e uma perturbação insone que me incomodou até as três da madrugada, mas não me impediu de estar estirado ao chão do sótão logo cedo, na manhã seguinte, revendo a mesma liturgia de flores murchas trocadas e flanelas, que Artur pareceu assistir com certa decepção nervosa, insatisfeita, só tornando a abrir algum interesse quando o velhinho dobrou a esquina na precisão inconcebível de seus horários inúteis e espantando-nos, é claro, pelo pressentimento de flores que trazia com dificuldade nos braços, um vaso imenso de prímulas novas que me trouxe uma assustada sensação de desconforto e em Artur, ao contrário: ah, então vai ser assim? as flores são para a mãe, e foram, mesmo. O sorriso da mulher pareceu realmente honesto, puro contentamento, o que Artur confirmou em uma lucidez premonitória, que seria divertida não fosse a seriedade da coisa toda, mas afinal iniciou-se a trégua adocicada do café e comecei a me tranquilizar sobre as prímulas, nada demais, talvez, até que então a surpresa antecipada de mais uma caixinha prateada, desta vez um pouco cedo até mesmo para a menina, que a abriu quase tensa para encontrar um magnífico unicorniozinho que deveria ter um significado maior, já que pareceu maravilhada, liberta, aliviada de um tipo de resguardo que não consegui compreender, nem mesmo Artur, que pôde anunciar: é agora, deve ser, e foi mesmo com um terror impotente que vi o velho erguer a mão pacífica de mar interior, um esquecido anel de formatura no indicador, para tocar-lhe um dos seios com uma volúpia débil e desaprendida, quase um respeito perverso, sem entender mesmo o grito de ódio que a mãe não deixou de ouvir e a vidência de Artur aguardava deliciada durante todo aquele tempo. Jamais pudemos concordar quanto ao que se seguiu e enquanto Artur via o velho retesar-se todo num retorno agressivo à virtude amorfa de seus órgãos, eu vi uma névoa indignada de ódio instaurar-se no olhar parado da menina. Enquanto Artur assistiu maravilhado à retirada muda e derrotada do velhinho, um inclinar de cabeça quase agradecido sob a satisfação vingada da mãe, eu apenas percebi com um terror sereno que ela derrubava o unicórnio ao chão enquanto suas mãos aturdidas procuravam furiosas por algo, qualquer coisa, um refúgio, até encontrar uma sólida estatueta de bronze que desferiu repetidas vezes sobre a cabeça insolente do homenzinho. Enquanto Artur acompanhou-o até a última esquina de seus desejos terminados, vi uma enorme mancha de sangue crescendo devagar e em paz sobre as almofadas aspergidas e o estofamento do sofá cerimonial, nós dois no mais completo silêncio e na certeza bipartida de que víamos e ouvíamos o que estávamos aguardando durante toda a semana, cada um a seu modo e desejo, no entanto, daqui de cima, quem pode realmente afirmar?</p>
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		<title>Por que não?</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 19:17:29 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por que eu demorei tanto para fazer isto? Não sei&#8230; Por muitos anos preservei aquela ideiazinha gostosa de ver um livro publicado, pequeno que fosse, de pegá-lo nas mãos, o papel novinho, cheirando a livro mesmo&#8230; abrir e me ver ali, tantos Fernandos diferentes, de tantas épocas diferentes, tantos olhares diferentes, tantos medos e vontades [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=10&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por que eu demorei tanto para fazer isto? Não sei&#8230; Por muitos anos preservei aquela ideiazinha gostosa de ver um livro publicado, pequeno que fosse, de pegá-lo nas mãos, o papel novinho, cheirando a livro mesmo&#8230; abrir e me ver ali, tantos Fernandos diferentes, de tantas épocas diferentes, tantos olhares diferentes, tantos medos e vontades diferentes&#8230; e essa ideiazinha, gostosa, aos poucos virou sonho e eu nem percebi. Tanta coisa que eu não percebo mais&#8230; e de repente, assim sem querer, caí aqui e pensei: por que não? Talvez não cheire a livro, mas ao menos tem a alma de um&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/fdomeniconi.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/fdomeniconi.wordpress.com/10/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fdomeniconi.wordpress.com&amp;blog=10662213&amp;post=10&amp;subd=fdomeniconi&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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