Posts de junho \13\UTC 2011

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As Dunas (um dos mais antigos…)

2011/06/13

Não que eu realmente me aborreça.

Parece que durante todos esses dias aprendi a conviver com meus próprios ruídos. Agarro-me a cada detalhe, talvez até com um certo desespero silencioso, mas muito natural. Detesto a avidez, mas consigo sobreviver de forma quase agradável às limitações curtas de nossa sala, dos quartos, da cozinha. Cada um, agora, me parece sem qualquer segredo, uma coisa muito irritante. Principalmente a cozinha, onde passo a maior parte do dia, enquanto Artur não regressa. É estranho porque, estando nela, deixando de lado talvez apenas o incômodo da falta de sons e a presença do vento, tenho a sensação de que tudo permanece como sempre foi. Através da vidraça pequena e limpa, ainda consigo ver as violetas colocadas nos vasos sobre o peitoril da casa do outro lado da rua. Um pouco tristes, talvez, pelo esquecimento. Posso perder ainda vários minutos observando o cata-vento sobre a torre da igreja, rodando louco em redor de si mesmo, a única coisa móvel além de mim e Artur após as seis da tarde. E, com eles, uma pequena infinidade de sinais de vida foi pouco a pouco se incorporando à minha, de tal forma que, pelas manhãs, procedo a uma lenta verificação de cada um, o corpo todo tenso, suspenso na horrível sensação, no horrível medo de que um deles não vai estar no lugar de costume, que terá partido, também, como as pessoas. É como cultivar leões, sempre na interminável espera que um deles acabe nos devorando de repente.

Há somente uma janela que não me permite esse cultivo, a maior delas, que dava diretamente para o campo e a rodovia que o parte em dois. Através dela, sentados nas poltronas da sala, ficávamos muitas vezes quase até a madrugada, perdendo o olhar na noite pesada que se espalhava sobre tudo, igualando, fazendo desaparecer. Não acendíamos a luz, a lua se encarregava do pouco que precisávamos. Artur acendia seus cigarros e, a cada tragada, eu podia ver por alguns segundos seus olhos grandes e caídos. Os bigodes, às vezes, se dividiam em uma espécie de sorriso, talvez nem isso, mas somente uma expressão de felicidade que toda a calma deveria traduzir. Permanecíamos assim por várias horas, como figuras de leite deslizando por um cenário desconhecido, ouvindo um cão que insistia em latir para o nada, para marcar sua presença naquele universo imóvel, vendo sem pressa a lua se esmagar contra a vidraça, cortando-se, lançando-nos, com o passar das horas, num lago escuro e denso de onde saíamos apenas para dormir. Já faz algumas semanas, entretanto, que Artur cobriu nossa noite com um espesso cobertor preso à parede com pequenos pregos. A janela, agora somente um retângulo negro e morno diluído no sol da tarde, provoca-me algum medo, alguma inquietação. Sei que, por trás dela, poderia avistar as dunas. Nossas dunas amarelas, brilhantes, movendo-se em sua respiração luminosa e alternada. Sei que elas se mantém vivas atrás de nosso cobertor. Posso até mesmo senti-las bem próximas quando consigo ouvir o vento ao atravessar, sempre depressa, a sala aquecida.

Às vezes fico espantada com o número de pequenas coisas que consigo realizar para atravessar o dia. Pela manhã, depois de cuidar do quarto, começo quase que maquinalmente a preparação dos doces. Poderia ser mais rápido, mas, após tanto tempo vivendo desta forma, a gente aprende a se demorar nos mais simples trabalhos, atingindo-se os limites da monotonia e da rotina que, agora sei, estão muito mais distantes do que se possa imaginar, embora nada consiga ser tão cansativo quanto a inatividade e as cadeiras. E é assim que perco a metade do dia, lavando e descascando cada uma das frutas que Artur sempre me traz todas as tardes. Em menos de uma hora, os pedaços já estão no fogo, o açúcar começando lentamente a derreter, escurecendo devagar, ganhando uma coloração de vidro. Me assusta. É como uma pequena duna branca sendo destruída. Descobri que me causa um estranho prazer esse passageiro poder que adquiro de exterminar as dunas, de transformá-las em uma enorme calda de areia negra sobre o campo. Só me desprendo disso quando a casa toda começa a ser invadida pelo cheiro ácido dos morangos e pêssegos, pelo denso aroma das goiabas ou ainda pela suavidade um tanto perturbadora das maçãs. Todo esse processo, acompanhado pelo ruído seco da colher de madeira raspando no fundo dos tachos, me absorve por completo. Tudo passa a se resumir apenas em odores e sons. Nada parece ter a capacidade de quebrar esse momento até que, subitamente, uma primeira bolha explode com dificuldade na superfície de aparência dura dos doces. Seguem-se uma segunda, uma terceira e logo toda a cozinha submerge naquele borbulhar viscoso, rouco. Só então consigo me isolar de tudo. O sol, em geral, já está começando a declinar nesse momento e, pela primeira vez durante todo o dia, sinto-me completamente só. Quase sempre ligo o rádio, ou me ponho a lavar com violência a louça usada. Procuro fazer o máximo de sons possíveis para encobrir o silêncio que vem de fora, que atravessa as paredes, que me faz lembrar as dunas pacientes em sua espera. Em nossa espera. Pouquíssimas vezes choro.

A noite começa a se erguer sem que eu costume perceber. Da rua vazia vem um som forte, contínuo, mas que, nem por isso, tem algo de inesperado. É isso que provoca o desespero maior, nada mais existe de inesperado, de novo, de secreto. Todas as coisas que fazem parte de nossas vidas se tornaram passos, uma seqüência prevista de atos e pensamentos que tentamos contornar e vencer, mas é inútil. Nada do que fazemos, falamos ou até mesmo queremos sai de uma determinada linha de gestos e costumes que invariavelmente mantemos viva, como que se dela dependêssemos para sobreviver. É uma escolha desagradável entre a morte de situações e a vida de repetições incontroláveis. Ontem, pela manhã, atirei uma xícara contra a parede. Não adiantou. No primeiro instante senti que ela explodia dentro de mim, que o som ficaria para sempre preso no ar. Foi como se eu mesma me estilhaçasse. Logo depois, porém, compreendi que se continuasse a repetir o gesto nos dias seguintes, ele também se tornaria parte da mesma seqüência. Um elemento novo que logo perderia todo o significado. Tudo como o resto. Me senti perdida. Não sou capaz de criar sequer minhas próprias situações.

O automóvel pára e, logo depois, o contorno de Artur contra a porta de vidro fechada da sala. Antes de desaparecer para o quarto com os jornais, larga sobre a mesa duas ou três caixinhas com frutas maduras. Enquanto me ocupo em desembalá-las e preparar o jantar, o dia – agora noite, ganha uma conotação inesperada com a presença viva de outra pessoa compondo perturbações que não tenham sido criadas por mim. Ainda que não sejam diferentes das do dia anterior, é pela primeira vez que me sinto existir, ocupar algum lugar definido. Ter uma finalidade. Aí então o chuveiro lá dentro enquanto estendo uma toalha sobre a mesa e espalho a louça sem nenhuma atenção, numa deliciosa capacidade de improvisar um pouco. Depois o arrastar de chinelos e de novo Artur, incrivelmente grande colocado diante da abertura que separa a cozinha do corredor, um retângulo dentro de outro. Sem avisos ou mesmo até olhares mais prolongados e muito perigosos, jantamos com calma, alguma coisa que me põe tanta angústia quanto o vento intérmino que ouço durante a noite, os talheres se trincando contra os pratos, os copos baixando com um som seco sobre a mesa. Pouco depois já estamos colocando os doces nas compotas, para quê, meu Deus? marcando com um lápis grosso o sabor por cima das tampas e empilhando os vidros lacrados entre nós, uma parede doce e irregular que ajuda a nos evitarmos. A destruição de todos os sonhos. Nesses momentos, quase não nos falamos. Gostaria muito de perguntar, mas não chega a ser preciso. Nós apenas sabemos. As dunas estão se aproximando cada vez mais, imperturbáveis. Vêm ao nosso encontro, nos estendendo seus braços vivos, últimos que somos, depois que todos partiram sem olhar para trás, deixando uma ausência completa de vida que atravessa todas as casas lá fora, como uma enorme fera, invisível e muda. Tentamos adiar a verdade para que ela não exista, não importe, não seja mais que uma estória desconhecida guardada em segredo. Subitamente, toda essa seqüência de imagens e pensamentos me é quebrada pela voz áspera de Artur. É alguma coisa de agressiva, de tão repentina, que chega a me causar uma tonteira, algo que se divide por todo o corpo, destruindo o chão. Uma enorme xícara explodindo contra a parede. Tudo o que construí sendo delicadamente arrebentado. Nada posso fazer e não preciso, na verdade, me concentrar no que ele diz, apenas sei. Percebo-o erguer-se com alguma dificuldade para sair, um gesto descuidado derrubando uma compota de pêssegos da mesa, o doce amarelado se espalhando sobre o chão liso.

O simples fato de agora termos que encarar isso como uma verdade irredutível, faz com que a casa se distancie de mim. Corro o olhar pela cozinha, pelo pedaço de sala que consigo entrever, uma lista absurda dos objetos que podemos levar me atravessando a mente, o odioso lado prático. Numa sucessão rápida e obscura de lembranças, vou separando as coisas: as intermináveis compotas, o rádio, alguns retratos e louças… em pouco tempo consigo reunir nossas vidas num amontoado incoerente de objetos.

A casa, agora, nada significa.

Passamos a noite toda acordados, o olhar preso no teto, a ouvir o vento, fingindo, num pacto sem sentido, que dormíamos tranqüilos. Fiquei cada minuto suspensa em uma certa ansiedade, um certo receio de que os primeiros sinais da manhã, os primeiros gritos da madrugada pudessem me partir ao meio, esperando que a noite se tornasse magicamente interminável. Sempre me julguei capaz de transformar o último segundo em um século.

Artur acaba de sair, talvez pela última vez.

Quase que com raiva, ponho-me a fazer coisas nada habituais, mas sem nenhum prazer nisso, uma pilha de objetos irregulares e sem sentido comum se formando à porta da entrada. As roupas dobradas e limpas, os sapatos sem brilho, pequenas caixas veladas. De repente, a inexistência de um passado. Nada nos aconteceu durante todos esses meses e o pior é que começo a achar isso agradável.

Quando acabo, olho sem nenhuma emoção para tudo aquilo à minha frente, eu e Artur representados por um pequeno número de toalhas, quadros e caixotes. Começo a chorar, não tanto pela partida inevitável, que ela pouco me aborrece, mas talvez pela casa, agora tão impessoal e lisa, uma lâmina de vidro partida. A sala ainda permanece em sua noite constante. Paro diante do enorme cobertor sentindo seu calor, uma coisa fria que chega até mim e, com uma coragem desconhecida, arranco-o da parede. A claridade do sol se espalha de imediato por tudo, um golpe, as poltronas empoeiradas se encolhendo, retornando a seus lugares de costume. Recuo alguns passos, de repente assustada ao me deparar com as dunas lá fora, a apenas alguns metros de mim, me encarando avermelhadas. Estão enormes, próximas. Imensas em sua espera. Fortes. Posso sentir sua força. Indestrutíveis, porque fortes. Fortes, porque indestrutíveis. Nada como o açúcar dos doces. E prosseguem em seu caminho, prontas para cobrirem tudo daqui a dias, horas. Cada quarto, cada espaço será apenas areia quente, um fogo sólido, macio.

Artur chega ao entardecer. Carregamos o carro sem ânimo, sem pressa. Adiar, como sempre, este instante, até que se torne impossível. Entro pela última vez. Volto logo depois, carregando algumas coisas esquecidas e partimos, depois de trancar a casa numa desesperada tentativa de protegê-la. A lua cheia se divide na superfície luminosa das dunas que deixamos para trás. Volto-me para Artur, com a necessidade de dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas ele chora em silêncio.

Ainda olho por sobre os objetos que se amontoam no banco traseiro. As dunas parecem imóveis. Sempre pareceram, e é isso que as torna tão irreais, inofensivas e mortais. Resolvo não contar a Artur que, ao entrar ainda há pouco, encontrei areia espalhada pelo chão da sala.

É preferível pensar que partimos antes do fim.

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