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Este talvez seja meu conto mais simbólico, mas também um dos que saiu com mais facilidade…

2010/12/29

Jonas e a Casa de Jonas

Primeiro foi a mãe, uma visitação como tantas outras, às vezes aparecia logo cedo e se deixava ficar até o almoço, em conversas partidas, sem significado, enquanto aguava as plantas, estendia os lençóis para que pegassem cheiro de sol, ou corria preparar um café forte e pouco doce que se arrastava por toda a casa e demorava o resto do dia para se desprender dos cantos e cortinas. Isabel gostava. Entregava-se, irresistente, à presença sem contornos da mãe, à calma insuportável com que ela realizava cada gesto pacífico, suspendendo-a pelo ar, como se um movimento um pouco mais descontrolado pudesse partir o instante pelo meio. Era um contágio e, de tanta vezes, já lhe parecia impossível separar a presença benéfica da mãe de seus dias atenuados e limpos. Ligava o rádio, baixinho, e permitia que se confundissem, numa única impressão atordoante, músicas, os sons vagos da rua e a voz da mãe; primeiro foi ela, naquela manhã que nada continha de específica, não fosse talvez um quase invisível aviso de chuvas entrando com um vento fresco que se aquecia antes mesmo de lhe chegar a tocar o rosto. Mais tarde, sozinha, Isabel iria acreditar que não havia maneiras mais ou menos suaves de se dizer:

- Jonas não virá almoçar, hoje.

Disse, apenas, e havia sido somente para preencher um inocente intervalo de silêncio que havia se formado enquanto a mãe guardava as xícaras e ela se ocupava com algumas escarolas.  Na verdade, jamais chegaria a perceber o olhar cheio de angústias da mãe não fossem as três xícaras que praticamente se lançaram ao ar e se quebraram em dezenas de pedaços contra o piso da cozinha. Foi muito rápido, e Isabel mal teve tempo de perceber a mãe, inerte em meio aos cacos de porcelana espalhados pelo chão, os braços caídos junto ao corpo e uma tristeza quase infinita à sua volta. Em poucos segundos, entretanto, retornava à vida e, disfarçadamente, enquanto recolhia os pedaços, disse alguma coisa incompreensível e enxugou os olhos com as costas da mão. Isabel voltou-se depressa para a pia, assustada, e olhou através da vidraça para a rua, como se fizesse aquilo pela primeira vez, como se pela primeira vez visse aquela calçada, o canteiro e o sol forte que arrebentava em cada pedra.

Logo no início da tarde foi a vez do vizinho que tocava cello. Isabel nunca o tinha visto, mas pôde reconhecê-lo com facilidade ao abrir a porta e encontrá-lo, desajeitado com o enorme instrumento que não conseguia apoiar no chão. Era um pouco diferente do que ela havia imaginado e lhe parecia ser tão custoso descobrir-se daquela forma, à luz transparente do dia, quanto era para por demais complicado para Isabel ter diante de sua porta alguém que nunca a havia visitado e, assim, quebrava todo o equilíbrio delicado de ordem que ela tentava manter. Por quase quinze minutos ficaram os dois ali, num silêncio constrangido, ele na procura confusa de uma posição mais cômoda para o violoncelo, ela tentando achar qualquer precedente que a ajudasse. A única coisa que ocorria a Isabel era uma improvável porta travada por um golpe de vento, ou uma súbita necessidade de utilizar o telefone ou pedir aspirinas, mas sempre sobrava o cello, enorme, inoportuno, sem razão de ser. Sentia-se a ponto de chorar quando, com um inarticulado pedido de desculpas, ele entrou e acomodou o que carregava em uma poltrona, enxugando da testa uma grossa camada de suor. Isabel fechou a porta, nervosa.

- Pois não? – Disse, subitamente feliz por haver transferido toda a responsabilidade dos começos para seu visitante.

- Sou seu vizinho. – Explicou ele, procurando isentá-la de qualquer culpa por aquele incidente. Isabel sorriu, satisfeita. Afinal, o violoncelo começava a ficar menor.

- Sente-se, por favor. – Sentia-se mais livre, embora conservasse a inexplicável certeza de que tudo aquilo era algo que deveria esquecer mais tarde.

- Ah, não! – Gritou ele preocupado.- Quero dizer, muito obrigado, eu…eu só estou aqui de passagem. – Olhou para o instrumento e, mais uma vez, parecia querer justificar-se. – Vim… – Silenciou, de repente, sentando-se como podia na mesma poltrona em que colocara o cello. Isabel suspirou e, de uma forma indefinida, achou que sentia compaixão pelo pequeno visitante.

- Vou preparar um café. – Era o máximo que podia fazer para encorajá-lo a prosseguir. Deixou-o encolhido, ansioso, e saiu depressa para a cozinha. Foi enquanto enchia a chaleira. Olhou, como fizera pela manhã, através da vidraça, e concluiu que realmente desconhecia aquela rua, jamais havia visto aquelas pessoas e não se recordava de haver, algum dia, pisado naquele calçamento. Ouviu, então, um ruído estranho vindo do segundo andar da casa, um som abafado de madeira se envergando ou de pedras se chocando, mas quase não chegou a prestar atenção, uma vez que, logo em seguida, o cello começou. Primeiro tímido, como deveria ser, como se ele apenas afinasse o instrumento. Depois um pouco mais forte e decidido, uma busca terminada, e, logo, toda uma melodia entristecida se desenvolvia e derramava pela casa. Era bonita, apesar de os acordes se repetirem sem pressa, como se jamais fossem terminar. Quando Isabel voltou à sala, com o bule e as xícaras em uma bandeja, aguardou ainda por alguns minutos, imóvel, quase deliciada, até que o visitante se apercebesse de sua presença e interrompesse a música com uma última e prolongada nota que correu através da sala e saiu pela janela. Olhou-a, demorado e, sem mesmo largar do arco de crinas, concluiu:

- Vim porque soube a respeito de seu marido.

- Jonas não veio almoçar, hoje. – Disse Isabel, colocando depressa a bandeja sobre a mesa de centro, antes que a cena da manhã se repetisse, incontrolável, destruindo todo o seu aparelho de café. O vizinho se ergueu, como se não a ouvisse, e, servindo-se do bule, bebeu o café num gesto rápido. Agarrou o cello e, dirigindo-se à porta, falou, sem encará-la:

- Todos nós compreendemos.

Saiu em seguida, ainda mais perdido do que quando chegara, deixando a porta aberta.

Isabel só tinha certeza de que a percebera no final do dia, mas não podia precisar quantas vezes havia passado diante dela sem se dar conta de sua existência. Estava ali, e, mais tarde, quando se recordasse daquele dia com a desagradável sensação de que ocorrera há muito tempo, diria que poucas pessoas reparariam em uma simples porta, mesmo que ela estivesse ocupando um espaço que, naquela mesma manhã, estivera sempre reservado a um pedaço liso e branco da parede do corredor. E no entanto, ali estava, nova e muito bem instalada, entre os dois quartos, trinco e dobradiças polidos. De início, havia sido possuída pelo medo incontido de haver descoberto algo desconhecido dentro de sua própria casa: uma porta fechada, uma violação. Depois de algum tempo, porém, ainda imóvel no meio do corredor, o medo começara a ceder e o incompreensível passara a atraí-la. Se era uma porta, deveria conduzir a algum lugar. Entrou nos quartos, olhou pelas janelas, tentando encontrar o outro lado, mas não havia nada, nenhum sinal de continuação, nenhum vão ou canto que, até então, houvesse sido ignorado. Conhecia a casa muito bem e sabia, tinha a certeza de que aquela porta deveria abrir para o nada, para uma vista insensata e estéril da rua. Encostou o ouvido na madeira lisa, sem resultados. O único som que conseguia perceber era o do vazio, um vazio longo e distante, vez por outra quebrado por um estalar abafado de madeira, por um roçar quase inaudível de tijolos se esfarelando. Mais nada. Pôs a mão no trinco e experimentou, com uma cautela tensa e deliciosa lhe atando o corpo todo. Não estava trancada, e abriu um pouquinho para dentro com uma inesperada suavidade. Isabel permaneceu assim por alguns minutos, ansiosa, a mão congelada, até perceber que o mal estava feito para, então, abrir a porta de uma vez por todas, num único e decidido golpe, e encontrar somente um cômodo minúsculo e vazio, sem janelas ou mobília, e ainda cheirando a tinta fresca. Era, de alguma forma, uma decepção. Com o medo desfeito por uma rápida descarga que lhe percorreu os ombros, Isabel arriscou-se a entrar, devagar, no quartinho escuro, a luz do corredor conseguindo iluminar parte do assoalho e das paredes recém caiadas. Não havia muito o que ver, parecia um quarto de despejo abandonado, inútil. De repente, animou-se um pouco com uma idéia boba: viesse de onde viesse, aquele lugar bem servia para acomodar aquele monte de caixas de papelão que Jonas insistia em manter na garagem, ocupando espaço e juntando poeira. Sentiu-se leve em poder pensar naquilo e, por certo tempo, distraiu-se tentando imaginar como poderia guardar tantas coisas velhas ali. Era até mesmo uma pena que não houvesse surgido um quarto maior, onde pudesse, talvez, ajeitar o carrinho de feira, um traste, e a máquina de costura que herdara da avó. Sentia-se quase voltando à tranqüilidade quando, parecendo ouvir um roçar de pedras do outro lado da parede, Isabel tornou a sentir uma espécie de pavor vago e saiu depressa. Parou junto à porta, um tanto enjoada, e observou que já havia quase anoitecido. Os restos da tarde chegavam, mornos, com uma claridade entristecida e alaranjada. Mesmo sem desejar, sentiu-se mais uma vez sozinha e se lembrou de que Jonas não viria para o jantar.

Algumas horas depois veio o padre. Isabel recebeu-o coberta de pó e teias de aranha, com um enorme lenço ramado na cabeça, perdida em uma confusão de caixas de papelão abertas, papéis amarelados e fotografias descoradas que resolvera transportar para o novo quarto, antes que Jonas retornasse. O padre pareceu não reparar na desordem e, afastando com cuidado uma pilha de livros corroídos, sentou-se na mesma poltrona em que o vizinho colocara o cello no início longínquo daquela tarde. Isabel não se lembrava mais do padre, uma vez que o vira pela última vez somente durante a cerimônia do casamento, mas tinha a impressão de que ele engordara, talvez porque mangas da batina repuxassem toda a vez que ele coçava o nariz. Pensou que fosse alérgico a poeira e isso a martirizou um pouco, como se fosse responsável por fazê-lo sentir-se pouco à vontade. Não conseguia imaginar o que dizer e parecia que ele também procurava um assunto qualquer, já que retorcia a ponta da batina com extrema inquietação, enquanto olhava, aflito, ao redor. Subitamente, mais por estar cansada de esperar do que para começar um assunto, Isabel levantou-se e, fechando uma das caixas, disse:

- Estou tentando dar uma arrumação nessas coisas todas. Tenho um quarto a mais na casa, hoje, e…

- Nós compreendemos. – Interrompeu o padre, angustiado, baixando a cabeça em seguida, como se houvesse se arrependido do que acabara de dizer.

Isabel irritou-se. Parecia que, nas últimas horas, todos compreendiam tudo antes mesmo que ela necessitasse explicar. Era uma sensação áspera, bastante desagradável. Na verdade, quem começava a não entender nada era ela mesma. Jonas decidira não jantar em casa, uma porta havia surgido em seu corredor, todo mundo entendia e, pior que isso, todos se expressavam em grupo. Eles compreendiam. Eles sabiam. Eles tinham pena. Aquele dia insuportável havia se tornado uma sucessão monótona de visitas repetindo as mesmas palavras insanas e se comportando de maneira idêntica. O padre percebeu sua irritação e, também erguendo-se, disse, mais uma vez coçando o nariz:

- Eu poderia ajudá-la.

- Não é necessário. – respondeu Isabel, quase em pânico. – Jonas deve chegar logo.

- Ele pode demorar. – Adiantou o padre, mais uma vez olhando para o chão. Isabel achou que ele tentava amortecê-la de uma dor maior, que ela ainda desconhecia, e começou a se sentir mal por vê-lo daquela maneira. Além disso, talvez ele pudesse ser realmente útil. Algumas caixas eram pesadas demais para que as carregasse sozinha escada acima.

Foi muito mais tarde, mas Isabel já não conseguia precisar quase nada. As coisas pareciam se precipitar a sua volta, sem que ela pudesse interferir. As últimas horas haviam se escoado de uma forma insípida, como um gotejar, um escorrer lento e quase imperceptível, que podia apenas adivinhar. Tentava se lembrar da mãe quebrando a louça, mas era impossível, parecia passado, terminado. Sabia, apenas, que a noite já ia alta e morna, um silêncio quente entrava pelas janelas abertas e vinha até o pequeno quarto. O trabalho, ao menos, havia sido produtivo, e quase todas as caixas já estavam empilhadas e ordenadas. O padre ainda continuava a trazer as últimas que restavam, quieto, a batina se escurecendo com grandes manchas arredondadas de suor, o rosto vermelho e congestionado pelo esforço. Haviam parado por alguns instantes e bebiam limonada gelada, em silêncio. De alguma forma, Isabel achava que ia ficando um pouco mais calma. O quarto, sobretudo o quarto, já não parecia tão deslocado, tão inerte. Passava a ter uma finalidade, havia sido ocupado e já começava, até, a cheirar mofo, um cheiro tranqüilo e alegre de mofo e papelão úmido que lhe transmitia, mesmo, a aparência de sempre haver existido. O padre, por sua vez, havia se revelado uma pessoa extremamente simpática e silenciosa. Isabel não havia tido a necessidade de explicar nada a respeito do novo cômodo, e isso a alegrava. Observou-o. Bebia calado, um tanto ofegante, as bochechas luminosas, sem mais aquele constrangimento difícil que a irritara demais no começo da visita. Remexia, distraído, em algumas fotos espalhadas pelo chão, fotos velhas, cheias de manchas descoradas e furos imperfeitos de traças. Subitamente, com a voz ainda falha,  disse:

- Esta aqui é você?

Isabel se aproximou e olhou. Parecia ela, quase não havia dúvidas de que fosse ela, dez ou quinze anos atrás, usando uma saia curta de pregas e um ridículo cabelo armado na nuca. Talvez fosse ela, sim, mas estava tão difícil de reconhecer, tão distante, como se não pertencesse à foto, como se aquele instante jamais houvesse acontecido. Mas estava ali e, portanto, só poderia ser ela quem sorria para a máquina fotográfica.

- Acho que sim. – Respondeu, cautelosa. Realmente, não conseguia entender porque o dia se demorava tanto, estava cansada, com uma vontade irredutível de estar só. – Acho melhor terminar amanhã, padre. Já deve ser tarde, e Jonas não voltará para casa, hoje.

- Nós entendemos.- Repetiu ele quase num murmúrio, movendo-se desajeitado e entornando a jarra de refresco sobre uma pilha de fotografias.

Desceram sem conversar e, antes mesmo que Isabel terminasse de fechar a porta, ouviu um crepitar agudo de madeira envergando e partindo ao meio no andar superior.

Isabel acordou com uma inexpressiva melodia de cello, que atravessava as paredes e se diluía no ar quente do quarto ainda escuro e sem forma. Sentia-se doente. A cama confusa a incomodava. Os sons e gritos da rua zuniam misturados, atordoavam. Por alguns momentos, ainda de olhos fechados, experimentou a idéia de que o dia anterior não acontecera, de que, em poucos segundos, ouviria a água do banho de Jonas correndo, abriria a janela e colocaria os travesseiros no parapeito, faria a cama, despreocupada, prepararia o café, ferveria o leite e lavaria a louça com o rádio ligado, até que a mãe viesse. Seria bom. Abriu os olhos com cuidado e reconheceu o quarto. Era o mesmo. Não havia nenhuma porta nova, nenhuma passagem aberta durante a madrugada. Talvez pudesse permanecer ali para sempre, até que Jonas retornasse, a claridade difusa era agradável, macia, a música do cello quase lhe adormecia. Gostaria de poder dormir mais. No entanto… tentou desfazer a lembrança balançando a cabeça, mas a testa úmida latejava, dolorida, no entanto, tinha que abrir a outra porta. A segunda porta, que encontrara pouco antes de se deitar. Não deveria ter olhado uma última vez. As caixas estavam lá, o quarto era um quarto, enfim, mas os ruídos de tábuas e pedras prosseguiam, as paredes rangiam, dobravam-se ao meio, desmanchavam-se vivas. Poderiam ser ratos. Na verdade, desejara realmente encontrar ratos, dúzias deles, ninhadas inteiras roendo o papelão das caixas e destroçando as fotografias inúteis. Então olhara. Então abrira a porta. E, onde durante toda a tarde tivera a nova parede, encontrara uma abertura, uma passagem bem feita, em arco, dando para um corredor curto, de ladrilhos avermelhados, terminando em mais uma porta fechada. Uma outra porta. Um outro dia. Isabel deixou que o desânimo viesse, lento, derretido, enquanto se levantava com enorme dificuldade. Devia ser tarde. Parou no meio do corredor, exausta. Tinha que fazer aquilo. Era uma necessidade. Abriu a primeira porta e lá estava. Não, não havia sido um delírio doentio, provocado pelo sono. A luz do dia parecia não querer se misturar ao quarto e deslizava com timidez, quase flutuando por sobre as caixas bem arrumadas, a jarra de limonada ainda caída e, poucos passos adiante, a nova porta, brilhante, escura. Talvez estivesse trancada. Talvez terminasse em algum lugar conhecido e a casa acabasse se encontrando com si mesma, pondo fim àquele martírio. Com a horrível impressão de estar sendo obrigada a repetir cada movimento do dia anterior, Isabel levou a mão ao trinco e abriu. Não chegou, mesmo, a se surpreender. Talvez apenas não esperasse encontrar aquela espécie de saleta, bem mais ampla que a outra, sextavada, bastante larga, pintada em um bonito tom marinho de verde e, era realmente cansativo, com mais uma porta e três janelas. Janelas! Era o primeiro sinal de realidade que a casa lhe oferecia. Deveriam abrir para algum lugar, poderia ver o que mostravam, lá fora. Poderiam deixar o dia invadir a sala. Sem procurar pensar muito, Isabel soltou o ferrolho lubrificado e abriu as duas folhas num só golpe, prendendo a respiração. Nada. A janela terminava apenas onde deveria, é claro. Abria sobre o jardim, mostrava a calçada, a rua, as casa vizinhas, imóveis e pacíficas. Algumas pessoas passavam. Era, mesmo, uma rua calma, cheia de árvores. Talvez devesse gritar, pedir ajuda. Todos compreendiam, não? Estava sozinha, Jonas não viria almoçar. Debruçou-se sobre o parapeito. Se não olhasse para trás, era como se estivesse em sua casa, em sua antiga casa. O céu começava a se carregar e prometia chuva para o final da tarde. Seria bom, o jardim tinha uma aparência seca, descuidada, e ela não era capaz de se lembrar da última vez em que o regara, ou se um dia havia chegado a regá-lo. A sinfonia do vizinho prosseguia, irritava. Não entendia porque tudo teimava em permanecer normal enquanto sua casa crescia a cada minuto, paredes e portas se multiplicando em epidemia, tetos aparecendo durante a noite, janelas se abrindo. Talvez precisasse chorar, mas não sabia como isso ajudaria. Voltou-se para dentro. O dia se espalhava pelo assoalho encerado. Quem sabe não seria bom colocar aquele tapete velho, ali. Não estava muito conservado, mas tinha uma cor neutra, combinava, e aqueceria um pouco a sala no inverno. Se sua mãe a visitasse naquela manhã, as duas poderiam mesmo se divertir tentando encher aquela sala com coisas antigas e inúteis. Então reparou na porta que havia esquecido.

Era como ter alguma dor forte. Toda a vez que tentava fazer algo, limpar um pouco a casa, ouvir o noticiário, lavar alguma roupa, enxergava a porta não revelada à frente e parava. Era preciso estabelecer algumas regras. Aquilo não poderia durar muito tempo, deveria parar em algum lugar. Poderia simplesmente ignorar tudo, era uma idéia. Poderia vedar a última porta com algumas tábuas e pregos, ocupar a sala vazia e se esquecer de tudo. Ou, então, iria abrindo todas as que ainda surgissem, uma a uma, portas, janelas, alçapões. Era importante que conhecesse a própria casa, mesmo que fosse o deserto infinito de corredores e salões em que parecia estar se transformando. Jonas não viria para o jantar e, portanto, ela tinha algum tempo para desvendar o que quer que a casa produzisse. E, talvez, acabasse por encontrar mais um banheiro, fazia tanta falta, ou ainda uma lareira. Em algum lugar a casa pararia. Então desenharia mapas, numeraria as entradas, desenrolaria um cordão para que não se perdesse, mas continuaria a ser sua casa. Era, sim, era o que deveria ser feito. Abriu. Estava um pouco escuro, mas era, em definitivo, uma escada. Degraus lisos de granito descendo alguns lances e dobrando à direita. Isabel hesitou por algum tempo, tentando se lembrar se havia deixado a máquina de lavar roupas ligada. Então começou a descer. Primeiro, devagar. Depois, acostumando-se aos degraus, com um pouco mais de firmeza. Lembrou-se de Jonas, mas quando ele voltasse, com certeza saberia onde encontrá-la. Estava em casa.

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