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Sísifo

2010/06/02

Era ódio, afinal, e nem poderia ser diferente, uma vez que Raquel lhe avisara de que a outra era uma pessoa insuportável e as duas haviam se medido com olhares agudos, logo no início da festa, e mutuamente se detestado antes mesmo que chegassem a ser apresentadas por Artur, tão ingênuo, será que não percebia por que terreno estava caminhando? Mas Artur não era mais um problema seu, não contava, embora houvesse sido impossível não deixar de perceber como parecia ficar cada vez mais bonito com o tempo, enquanto ela, muitas vezes, se sentia ressequida, amarga e, no entanto, eram somente fases, momentos rápidos, quase sempre inexpressivos, que terminavam em um choro solitário e mais uma foto do álbum de casamento rasgada em dezenas de pedacinhos frustrados. Sim, tentava se libertar do passado, mas eram inevitáveis os reencontros, os amigos comuns, freqüentavam ainda os mesmos bares e ainda pediam as mesmas bebidas, Gin Fizz, a cabeça começava a se tornar vazia, doce, a vontade como que escorria pela garganta, aquecendo o estômago e, de repente, ela e Artur terminavam na ponta da mesa conversando por horas seguidas, apesar da música alta e das indiretas maliciosas de Jonas, bobagem, apenas se falavam, conversavam sobre coisas sem a menor importância. No entanto, ela, como se procurasse alguma passagem, uma brecha, algo dividido que não fosse o copo de gin borbulhando sobre a mesa. Era inútil, é claro, e, por vezes, chegava mesmo a imaginar que apenas se conheciam, que se encontravam por uma nova primeira vez, a tonteira ajudava e acabava por possuir a clarividência de um futuro onde já conhecesse todos os erros e fosse, assim, capaz de evitar dali em diante toda a seqüência de desencontros e discussões noturnas que haveriam mesmo de tornar sua vidas num inferno. Podia até se sentir bem mais leve pensando assim, sem se dar conta de que era uma fantasia estúpida e até infantil, que se quebrava sempre com Artur arrematando o último gole, acendendo um cigarro e pedindo desculpas para sair antes do final da noite, e as noites teriam final?, provavelmente já estava se envolvendo com a outra, não deveria chamá-la de outra, era como se significasse algo e sabia que não, que mais nada, que passado, mas não podia se resistir e foi assim que tomou conhecimento a seu respeito: Artur falou a Jonas, Jonas a Raquel e Raquel lhe contou, sem graça, como se denunciasse uma traição. E afinal era quase isso, tanto que acabou se embebedando naquela mesma noite e dormiu no sofá da sala, cansada, derrotada, para acordar somente na tarde do dia seguinte, a cabeça latejando, o braço dolorido por haver se deitado em uma posição incômoda e uma sensação horrível de que alguma coisa havia lhe sido arrancada por inteiro, deixando um buraco na boca do estômago. Nos primeiros dias, como se estivesse morta, um desânimo vago em sair para o trabalho, distrações inúteis, cigarros queimando até o final no cinzeiro e Raquel, arrependida, não vai atender o telefone? Sabia que devia reagir, e, afinal, já não havia pressentido algo, uma certa ausência, muito antes de Raquel haver lhe contado? Fosse como fosse, todos perceberam sua entrega e devia estar ainda transparente, até mesmo quando resolveu voltar a freqüentar o bar e reencontrar todos, para se manter distante, um pouco perdida, o gin ficando pela metade, morno, ao lado de uma pilha de cigarros fumados sem intervalos. Depois, bem devagar, realmente uma cura, foi retornando à normalidade, ou o que quer que se chamasse aquilo, tentando se desfazer do passado, não era nada fácil, mas necessário, e sabia que não voltaria à depressão novamente, por isso se demorando para reagir, repisando e mastigando a estória toda, até sair ilesa. Se é que se saía ilesa, talvez alterada, sim, com toda a certeza, que então enxergava outras coisas, sentia as diferenças, conhecia os medos, e mesmo quando viu Artur pela primeira vez, depois, apenas depois, evitava dizer depois do que, mesmo quando o viu, foi como se encontrasse alguém desconhecido e, apesar disso, odiou-se por achá-lo tão interessante. Vinha sozinho, é claro, mas até quando poderiam impedir um encontro? Não muito, sabia disso, e logo a festa de fim de ano, a casa de Raquel e Jonas, não poderia deixar de ir. Na verdade queria, curiosa: ou era idêntica à outra ou seriam tão diferentes que o contraste chegaria a machucar, como machucou, mesmo. Chegou cedo, tão cedo que Raquel ainda estava no banho e Jonas, compreensivo, preparou-lhe uma bebida para relaxar, mas acabou servindo um Gin Fizz inconsciente e ela sentiu vontade de rir, que bobagem, o que poderia sair errado? Mas era inquietante. Artur sabe que eu venho? Sabe, Raquel quase mais nervosa, dividida entre os convidados que chegavam, a casa se enchendo e, talvez por isso, talvez pelo gin, um alivio, uma tranqüilidade que com certeza reverteria como um tapa, um murro seco, quando os dois entrassem pela porta. E foi bem assim, uma confusão, uma onda que a deixou totalmente sozinha no meio da sala, apesar do barulho e das conversas, mas era apenas ela que existia naquele instante, e Raquel, muito hábil, desorientando os dois para que toda a tensão se dissipasse naturalmente, e a outra, afinal, parecia tão mais jovem, era ridículo sentir-se assim tão diminuída, à deriva, não era nada disso e, no entanto, como evitar? Ao lado de Artur, a outra ria, não parecia preocupada, e nem deveria, mas soava falso, tudo parecia falso e ele tentando estar tranqüilo, correndo o olhar por entre tanta gente e rindo, também, mas nervoso, sobressaltado e Raquel, provavelmente arrependida de ter insistido tanto, mas era uma farsa e ela tinha que representar sua parte, todos tinham, só não contava com a apresentação, murcha, e com o “Artur me falou tanto a seu respeito!”. Desconcertava, por que ele falaria? e o quê? Isso implicava tantas coisas, escondia um milhão de significados, a maior parte traiçoeiros, verdadeiras armadilhas onde o principal era imaginar que ele não a havia esquecido ainda, o que era perfeitamente possível, ela havia? Raquel estava certa, a outra era mesmo uma pessoa insuportável, tentava sobressair-se o tempo todo e conseguia. Era mesmo ódio, afinal, e, até o final da festa, festa?, haveriam de cruzar olhares carregados, como se apontassem facas, e não fosse Raquel, Jonas e o gin, pegaria sua bolsa no quarto e sairia em seguida, sem ser percebida. O que seria muito mais sensato, porque depois, à meia-noite, com todos aqueles gritos e o champanhe caindo no tapete, sentiu que devia cumprimentá-los, por que não?, e a outra, muito sorridente, mas a seu ouvido, num sussurro raivoso que jamais esqueceria, “morra ainda este ano!” e todos imaginaram que chorava pela emoção da passagem ou, Raquel, pela tensão que terminava quando os dois se despediram e saíram por onde nem deveriam ter entrado. Então depois, nem conseguia acreditar, nas primeiras noites, madrugadas abafadas de janeiro, acordava encharcada de suor e achava, tinha a certeza de que morreria antes do dia amanhecer, seca na cama desfeita, amaldiçoada, e tudo isso seriam besteiras, mas não se sentia encorajada a revelar a ninguém o que ouvira, nem a Raquel, que só insistia em querer saber porque andava tão abatida e inventou um problema digestivo absurdo que era puro pavor, nem parecia mais a pessoa lógica de sempre, que droga! A outra deveria estar rindo, naquele instante, era ódio, sim, não podia negar, e estaria rindo porque podia adivinhar, podia saber o que ninguém mais sabia, que ela desaparecera de uma vez dos amigos e ficava todas as noites trancada no apartamento, encolhida na poltrona e escutando Borodin bem alto para que não percebesse a morte chegando. Ingenuidade, mas ficou mais de um mês entregue à horrível impressão da última noite até que então, de repente, com uma raiva redobrada, como podia? como conseguia afundar-se assim? Mas na verdade sabia que o que a erguia era a notícia de que a outra havia se mudado para o apartamento de Artur, Raquel demorando-se dias para contar de uma vez, dando voltas e voltas, preparava-a, mas era de se esperar e compreender. Era mais ódio ainda, uma sensação de vazio e derrota se cristalizando na garganta, não deveria ter se afastado tanto. Ou tanto fazia, porque teria sido o mesmo, inevitável, e para isso teria servido o “morra!” da última noite, deveria sentir-se ameaçada, e era insano, mas, Deus!, o que Artur teria lhe dito para que atacasse assim com tanta rapidez? Só que agora havia perdido, e nem chegara a lutar de verdade, doía muito, e teve que se segurar, parecer a mesma, até que Raquel saísse, para então começar a chorar e rasgar as fotografias que restavam. Depois, ainda na mesma noite, chovia muito, e a garrafa de gin, puro, já estava pela metade, depois, uma idéia, menos que isso, uma espécie de vontade, quando bebia pensava fácil, um pensamento rápido, mas muito confortável, bobagem. No entanto, quando se deu conta, imaginava a maneira mais fácil de vê-la morta. Era inocente, uma brincadeira que lhe trazia uma agradável inquietação, um prazer inútil, imaginá-la sufocando um de seus irritantes risos ainda na garganta, talvez Artur sofrendo um pouco, alguns dias, mas logo esquecendo, afinal, não havia falado tanto a seu respeito? Logo voltaria ao Gin Fizz, sozinho, mas desta vez haveria de ser diferente e então, uma semana depois, no supermercado, surpreendeu-se revirando uma caixa de raticida nas mãos, quase inconsciente e, assustada, largou-a de volta na prateleira com a impressão terrível e nítida de que alguém ia lhe perguntar “quem a senhora pretende matar?”. Acabou deixando o carrinho no corredor e saiu depressa, o rosto ardendo, porém à noite retornou e, quando chegou em casa, guardou os pacotes e ficou horas diante da embalagem alaranjada sobre a mesa, um cigarro após o outro. Desconhecia-se, mas aquilo a atraía, era novo, esquecia-se de Artur e as culpas pareciam se esfarelar, terminavam em nada, restava apenas saber como, nunca havia envenenado ninguém, não deveria ser difícil e, de repente, percebeu que não a preocupava nem um pouco a possibilidade de ser descoberta, quase queria isso, era ódio mesmo, tão perigoso e, no entanto, começava a gostar mais e mais da idéia, tanto que pouco dormiu, imaginando, e, só no meio da madrugada, como podia ter esquecido?, imperdoável, lembrou-se de que Artur detestava chocolates. Porque ele, sim, ele deveria ser poupado, ele não, nunca poderia ser…exterminado, a palavra como que dançava em sua boca, oleosa, e o dia que não amanhecia! Mas antes mesmo das nove já havia avisado a uma Raquel desconfiada que se sentia indisposta, nada demais, uma dorzinha de cabeça irritante e, enquanto falava ao aparelho, abria com cuidado a caixa de bombons sobre a pia, chocolate meio amargo e recheio de licor de amêndoas, tão bonitos nas toalhinhas de papel rendado, embrulhados em celofane amarelo, quase comeu um. Deveria ter comprado duas caixas, uma para devorar sozinha, enquanto a outra se contorcia em dores fatais e caía morta com um fio de sangue e chocolate escorrendo pelo canto da boca. O pensamento deliciava, mas tinha muito o que fazer, um trabalho delicado, frágil, abrir em cada um deles um buraquinho minúsculo com a ponta da faca, o calor ajudava, e colocá-los com muito cuidado em xícaras e copos para deixar escorrer o licor, devagar, um líquido grosso e dourado, de cheiro quase enjoativo, pingando vagaroso enquanto ela abria o veneno, assustada, quanto deveria colocar para que não houvesse erros? De repente rindo, ao se lembrar da mulher no supermercado, “por que não leva uma ratoeira, também?”, e um pânico repentino, “não, não é necessário”, agora parecia muito engraçado, mas os bombons já estavam vazios e, enfim, não havia dado mais que meio copo de licor, pouco a pouco se tornando turvo com o pó acinzentado que misturava com uma colher de chá, precisava jogá-la fora, depois, e depois?, talvez ela nem comesse, não gostasse de chocolates, também, ou pressentisse a vingança venenosa no gosto amargo e cuspisse os pedaços sobre o ombro de Artur. Não podia sequer pensar naquilo e era tão complicado colocar o licor de volta com um pequeno funil de plástico, que acabou se esquecendo, às vezes entupia, seria muito veneno? que fosse, metade acabava escorrendo, mesmo, e já passava do meio-dia quando aqueceu a espátula e tampou os furinhos com um pouco de chocolate derretido, perfeito, só que a cabeça parecia querer estourar e, como fazia calor!, a roupa grudava nas costas e pescoço, faltava ainda tornar a embrulhá-los, quase com carinho, e era carinho, sim, só que pelo trabalho, pela finalidade, então tomaria um banho e tentaria relaxar um pouco, um banho frio, forte, a tarde já havia começado a cair e entrava pela vidraça do banheiro com uma absurda suavidade, um pouco de silêncio demais. Ao sair, deparou-se com a caixa refeita e preparada para ser enviada, nenhum sinal, nada que revelasse seu conteúdo mortal, era ódio, sim, só que parecia um grito sobre a mesa, talvez impressão, quem sabe um pouco de gin não ajudasse, estava cansada, o dia havia sido difícil. Mas não era somente isso, então, o que ainda a incomodava? Não, não era nenhuma culpa, não havia remorsos e, de repente, ali estava, mas queimava e não havia enxergado antes, era ódio, é claro que era, mas estava impotente e, sem perceber, desembrulhava a caixa de bombons, morra ainda este ano!, havia se impressionado tanto e tinha se refugiado naquilo, só que era inútil. Tudo o que podia retornar eram as noites no bar e as brincadeiras sem graça de Jonas e isso, sabia bem, pouco durava, pouco havia durado das outras vezes, tantas, e no entanto já quase dez anos que ficava aguardando, o quê?, todos a cercavam e ficavam à sua volta e, sem querer, desembrulhava um bombom, mas sentia o choro chegando e se entregava, irresistente, Raquel já batia à porta com força, não faça isso!, e abrindo um por um, ia esmagando-os nas mãos, quantas vezes já havia feito isso?, o caldo açucarado e assassino escorrendo por entre os dedos e pingando na mesa, teria que limpá-la antes de jogar os bombons no lixo mais uma vez, chorando muito, era tanto ódio, mesmo, morra você, cadela!

Um comentário

  1. Olha, eu gostei da história…quantas pessoas já não passaram por isso??? conheço várias. Amei a música, amei,amei.. não sabia desse seu lado poético e artístico. Parabéns!!! mas na próxima vez , mata a maldita logo de uma vez, ahahahahaha bjos



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