Posts de janeiro \24\UTC 2010

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Para quem quiser ouvir a trilha sonora sugerida (e ouvida enquanto eu escrevia)…

2010/01/24

Com certeza a música é mais curta que o conto, mas transmite a atmosfera…

Clique com o botão direito para abrir em outra guia/tab, senão você vai sair do blog :)

http://www.youtube.com/watch?v=gr7B8Z6Ov3E

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Sereias, o mais recente…

2010/01/24

 

Sereias

 “Inquieto é o nosso coração, até quando repousa em Ti”.

Santo Agostinho

(Trilha sonora sugerida: Sirens, by Mythos)

Primeiro conheceu Amália e foi fácil, afinal, vizinhos que eram e dado seu costume de se pentear no quintal dos fundos, debaixo da goiabeira, enquanto ele estudava Santo Agostinho e ouvia seu cantarolar discreto. Quase podia escutar o roçar caprichoso da escova contra a cabeleira negra, gesto e canto fazendo da sombra um lugar ainda mais fresco, enquanto os degraus da escada da cozinha arrebentavam ao sol e ele sabia ter que entrar logo mais. Das vizinhas sabia apenas serem três irmãs, a mais velha, que nunca vira, Amália, do quintal, e a menina de improváveis cabelos avermelhados que já observara da janela. Gostava de encontrar o pentear todas as manhãs; era quase uma presença obrigatória, parte da rotina. Gostava de compor uma memória antecipada com aquele momento, algo para levar consigo antes que deixasse tudo e partisse de vez, sem volta. Era um jogo seu; silencioso. Sempre que algum gesto, som, cheiro ou palavra o ameaçavam pelo prazer simples, pela felicidade gratuita, e o atraíam para a deliciosa e mundana vida terrena, fazia deles uma memória: cerrava os dentes e forçava aquele momento lembrança adentro, aterrorizado com a possibilidade de se esquecer dali um mês, um ano, amanhã, soterrado em sacrifícios e liturgias. Era como quando saía pela cozinha, livro debaixo do braço, e antes de pisar a terra roxa, trazia da infância uma saudade infinita do quintal e, somente para se certificar, pisava o solo com força, dizendo a si mesmo: quero me lembrar deste passo, deste chão, quero que este minuto fique guardado em mim. E ficava. Era fácil construir lembranças. Bastava viver com intensidade.

Assim, Santo Agostinho e Amália eram agora parte do quintal, dos pés de gengibre que a mãe plantara, do riachinho que corria lá embaixo, da bananeira que nunca dera fruto bom, da amoreira que manchava a roupa, dos ruídos que vinham da cozinha e do sol ardido que se alastrava feito mato e tornava o canto da vizinha ainda mais nítido. Nada além daquilo; era apenas o que queria, logo deixaria tudo e seguiria de vez para o seminário, novas paredes, novos sons e sombras sem perfume de goiaba. Seria como um navegante partindo para um rumo desconhecido, então criava lembranças para que trouxesse na sola dos pés um pouco do cheiro de sua terra e na pele um pouco do tostado de seu sol. Ou era isso o que pretendia, porque às vezes, mesmo criadas e domadas, as memórias eram traiçoeiras e ele acabava largando o livro aberto, querendo saber se aquele era ele mesmo, ali, estudando, ou se também havia inventado a própria vida e se mantinha clandestino na própria nau. Era quando a voz de Amália parecia mais forte e a canção, ainda mais doce; era quando o quintal o abraçava, morno, quando desejava saber quem era, se estaria certo, se…? Tudo sempre muito passageiro, na maior parte das vezes era um tilintar de louça na cozinha, uma palavra dita pela mãe em um tom um pouquinho mais elevado, ou mesmo um esvoaçar mais brusco dos lençóis anilados no varal e pronto! estava de volta. Gostaria apenas de saber se aquele porquê ficaria sempre por ali, à sua volta, a única lembrança que jamais criara, seu único oponente naquele jogo solitário.

Mas nem mesmo isso teria evitado o som da flauta, uma surpresa, quase um medo, que se iniciou sem avisos, entre uma página e outra. Logo percebeu que fazia parte de tudo, tinha de ser, porque a voz de Amália acompanhava a música soprada, duplicava as notas e tudo se elevava misturado à própria luz do dia. Foi então, talvez, que entendeu pela primeira vez o sentido mais íntimo da palavra reverberação. Como tudo o mais naquele dia, também teve que estilhaçar a rotina antes que o novo começasse a governar o mundo por si só, e assim se aproximou do muro. Sem espanto, quase sabia, mas era a irmã de cabelos de cobre quem tocava a flauta, enquanto Amália cuidava dos cabelos e, sim, como que o esperava, os olhos escuros presos no exato ponto onde colocou a cabeça para ver de que se tratava. Recuar seria meninice, então ficou, mesmo quando ela abriu um sorriso e a flauta silenciou. Amália colocou a escova sobre o banco, com uma lentidão de horas, e somente a calma daquele gesto teria sido o bastante para que se emocionasse, mas ainda faltava a aproximação e a voz, ainda música, embora apenas dissesse:

─   Olá, vizinho…

Respondeu, é claro, mas espantado com a própria fala, desconhecido em si mesmo, por que tudo teimava em ser diferente naquela manhã? É claro que ela percebeu. Mas logo falavam de outras coisas, ele sobre a música, ela sobre o livro, conheciam-se devagar, aos pedaços, vizinhos talvez há pouco mais de três meses, até que Amália entendeu e perguntou:

─   Então vai ser padre? Tão novinho…

Sentiu o rosto esquentar e o momento estava preste a se tornar incontrolável quando a mãe o chamou, a voz sempre segura, e ele baixou os olhos, angustiado pela primeira indecisão. Ela apenas tornou a sorrir, mas seria melhor que houvesse desaparecido.

A descoberta mais desconcertante era a de que algumas memórias se construíam por si sós, sem que as provocasse, e eram as melhores… então por que não? Logo as pequenas conversas também se tornariam parte do quintal, ainda que Santo Agostinho fosse deixado de lado. Não teria a vida toda para aquilo? Além disso, era como se Amália fosse um outro livro, cheio de perguntas que ela fazia, assim inocente, curiosa mesmo, interrogações que talvez ele já conhecesse, mas tão difíceis de explicar. Sim, decidira há muito se tornar seminarista. Não, isolar-se assim não era um sacrifício, era uma vocação. Só que sentia que Amália havia interrompido sua jornada, ou então acenava um adeus, uma ou outra coisa tocando em uma inquietude que ele mal chegara a conhecer e, portanto, não sabia mesmo possuir, um desassossego natimorto. Não, repetia, não era carne, não eram os fluidos que despejava com culpa e raiva, mas era sim como se colocar despojado, sem proteção, sem quintal, sem memórias criadas, um divisor de águas, a semana anterior já parecendo uma estória contada e não um passado vivido. Ao mesmo tempo, porém, todo o resto prosseguia, manso como o riacho na borda do terreno, e sob a luz da lamparina via a mãe bordando monogramas em suas camisas brancas, encapando de couro mole seu livro de orações, montando sua vida, dia após dia, sem perceber as ondulações que o afligiam. Não que hesitasse, era afinal seu destino, seu rumo traçado, e o havia aceitado há muito, mas, pela primeira vez desde sempre, separava-se de si mesmo, e o destino não era mais seu, mas da semana passada, de antes da flauta, e então queria saber quem iria embora dali cinco dias.

Só conheceu mesmo a irmã mais velha, Leocádia, dois dias antes de partir, visita formal, sem graça, Amália insistindo tanto, uma sala cheia de louças e retratos, uma tapeçaria antiga de feltro na parede e uma colcha de retalhos cobrindo o sofá onde se sentou, como se sua presença ali fosse proibida. Amália em pé e a mais nova, agora possuindo um nome, Lígia, olhando da porta de seu quarto, o cabelo vermelho era quase tudo o que iluminava a casa. Era Amália quem falava, contava à irmã sobre seu destino, tão bonito, tão difícil, e Leocádia, dura e branca, parecia de gesso, a boca contraída, severa, concordava com a cabeça. Logo depois Amália desaparecia para a cozinha para fazer uns bolinhos de chuva, deixando um silêncio tão vasto como o temor que lhe mantinha os joelhos apertados um contra o outro e o olhar passeando por xícaras e antepassados, evitando Leocádia, que enfim sorriu:

─   Quando parte?

─   Depois de amanhã, respondeu depressa, quase feliz.

─   Está ansioso?

─   Muito…me preparei tanto…

Ela concordou com a cabeça. Ouviu a porta do quarto se fechar com um certo ruído.

─   Mas é tão novinho… não pode ter decidido sozinho, pode?

Sentia-se tão constrangido; aquela mulher gorda, pálida, ao mesmo tempo ameaçava e abraçava, parecia saber tanto, parecia ter estado ao seu lado todo o tempo, ainda menino, quando a mãe o levava para ver os anjos pintados no teto da matriz, quando lhe mostrava as imagens de santos, tão altos em seus pedestais, tanta beleza naquele sofrimento, tão sublimes na dor; depois a comunhão, o medo de trincar o corpo sagrado com os dentes.

─   Sempre quis isso, respondeu ele, um tanto sem convicção, quase queria perguntar “quem sou eu?” já que ela parecia saber tanto.

─   Claro…e faz bem em partir cedo, acrescentou, ainda não teve tempo para duvidar de quase nada…tão bonito isso…sua mãe deve se sentir tão orgulhosa…

Sentiu-se congelar, ela como que sabia mais, penetrava lá dentro e decerto podia ouvir o som da flauta que tocava em sua cabeça, a voz da irmã em uma música tranquila, seus medos em noites insones, mas medo de quê? Então um relâmpago de compreensão, um tanto nebuloso, mas ainda assim… temia o desconhecido, mas não aquele que estava por vir, não os corredores do seminário, as madrugadas, e sim aquele que ficava para trás, temia aquilo que ainda não conhecera, o passado interrompido, e entre amargura e medo deve ter arregalado os olhos, porque viu no rosto de Leocádia uma compaixão tão grande e o comentário, ah meu Deus, o comentário que ela jamais deveria ter feito…

─   Não deve se arrepender…nunca, você escolheu um caminho tão belo…tão diferente de todos por aqui…o que ficou, ficou…

Não fosse Amália e o cheiro de canela morna dos bolinhos, decerto iria começar a chorar ou sair correndo, mas tudo retornou a uma normalidade mansa, a conversa amenizou e até mesmo Lígia deixou o quarto.

─   Tenho certeza de que vai sentir saudades destes bolinhos, disse Amália, os lábios cheios de açúcar.

O sol do final de tarde entrava oblíquo pela janela da sala, incendiava os cabelos de Lígia, tornava Leocádia mais maternal e aumentava os olhos de Amália. Mas o que ficava?

Na noite seguinte, malas quase prontas, um cheirinho de água de colônia nas camisas brancas dobradas e a mãe parecendo sofrer, antecipando a distância, mas era um sofrimento santo, tão alvo quanto as camisas. Saiu à rua, insone, noite abafada, noite viva de grilos, muito tarde. Repetiu: muito tarde. Incomodava-o, agora, que quase todas as palavras lhe provocassem uma sensação de duplo sentido. Encontrou Lígia debruçada na mureta do jardim, uma das mãos enrolando interminavelmente uma mecha dos cabelos fulvos, a outra pendendo como morta sobre a grade baixa. Mal pareceu se aperceber de sua presença e afinal nem ele mesmo esperava qualquer aproximação: dentre todas as três irmãs, era aquela a que menos lhe havia falado, diria que Lígia sequer lhe conhecia. Foi então, com mais um sobressalto, quantos ainda teria que vivenciar antes de chegar ao seu porto? que a descobriu, não sorrindo, mas com uma sombra de diversão no olhar, chamando-o para junto da grade, onde o cumprimentou e atalhou:

─   Quando você parte?

Nos últimos dias, havia começado a aprender que as irmãs quase funcionavam de forma onisciente, como se compartilhassem os mesmos olhos, as mesmas palavras e, sobretudo, o mesmo semblante que guardava um segredo divertido, algo como júbilo, um prazer em saber alguma coisa a mais e deliciar-se com seu gosto adocicado.

─   Assim que o dia clarear… no trem das 6:40…

─   Pena… ─ Mas não havia tristeza. Seria compaixão?

─   Mas eu venho sempre que puder… ─ E sabia não serem essas as palavras a serem ditas. Odiava a cada vez um tantinho mais a incapacidade de dizer o que desejava a qualquer uma delas, o que sempre criava aquele vazio silencioso, a vontade de sumir no bafio da noite morna, enfiar a mão nos bolsos, qualquer coisa, exceto ter que ficar imaginando como continuar a conversa. Sorte sua que Lígia ajudou:

─   Vem cá, vou te dar um presente…

─   Um presente?

─   É… uma lembrança… pra você não se esquecer da gente…

Não iria mesmo se esquecer, mas entrou pelo portão que Lígia abria enquanto lhe falava, não sem certo receio, não sem certo desconforto, e foi quase por acaso que perguntou:

─   Suas irmãs estão lá dentro?

─Não… Saíram, a noite esta muito abafada, não havia refresco que bastasse… ─ E então sorriu, talvez pela primeira vez. A casa estava morna, recendendo a capim limão, uma única vela na sala trazia os retratos e bules para perto e jogava-os de volta de repente, com força. Parou quase junto à porta, mas Lígia o puxou com uma gentileza gostosa em direção a seu quarto:

─   Vem…

Seguiu-a, e não poderia dizer que tinha medo; ou antes, tinha, mas naquele exato instante era uma espécie de angústia, de desconcerto, como se violasse uma casa desconhecida, como se de repente se encontrasse sozinho em um local ao qual não pertencesse, mas cedeu e descobriu um quarto repleto de bonecas de porcelana e pano, criaturinhas de olhos espantados cobrindo paredes e cama, braços esticados, sorrisos congelados, roupinhas engomadas. Estancou, fascinado, enquanto Lígia abria uma gaveta e lhe estendia a flauta, um laço de fita púrpura amarrado a uma das pontas. Tomou-a com cuidado, surpreso, mesmo:

─   A flauta… mas eu não posso aceitar…

─   Claro que pode. É minha…

Levou-a inconsciente aos lábios, sentiu a frieza do metal ao toque, mas era uma frieza que abria possibilidades de calor, de sons, só não se atreveu a soprá-la, com receio de estragar o efeito pela própria inexperiência, no que foi auxiliado por Lígia, que empurrou devagarzinho o bocal de volta e aproximando o rosto junto ao seu disse:

─   Sopra devagarzinho, assim…─ E soprou para mostrar como era, mas cantarolando uma primeira nota, e depois outra, em uma espécie de efêmero pressentimento de voz, uma canção que desaparecia antes mesmo de se sustentar. Sentiu o hálito fresco chegando até junto de sua boca, quase uma brisa viva, as pernas amolecendo, deixando-se levar, a flauta caindo no tapete fofo e, logo depois, ele mesmo, afundando-se entre bonecas sobre a cama macia, sentindo, agora, que as notas lhe eram instiladas diretamente boca adentro por uma outra boca, morna e úmida como a noite e grudada à sua, os pulmões se enchendo de música, o corpo carregado por bracinhos de pano e papel machê, enquanto Lígia e os cabelos em chamas se desdobravam e cresciam em um corpo leitoso e proibido, seria? que lhe punha igualmente desnudo em todos os sentidos possíveis, já que descobria ser carne e febre, um desespero tão bom, uma violência calculada e, então, quando afundou sobre a pele úmida de Lígia e sentiu-lhe as entranhas, soube finalmente o que acontecia e quem realmente era e porque atravessara tantas noites tocando a si mesmo e recolhendo sua própria alma viscosa nas mãos. Enquanto se entregava aos movimentos do próprio corpo, sem mesmo saber porque fazia aquilo, sentiu pavor, sabia estar prestes a perder algo, a explodir naquele tremor, e parte de si mesmo ficaria ali, entre brinquedos, para sempre. Dividia-se entre querer saber como seria o término daquele maravilhoso sofrimento e nunca ter que parar; gritava baixinho, sentia as unhas de Lígia cortando suas costas enquanto lhe mordia o ombro, sem compreender a própria selvageria; tudo, agora, era música, frenética e sem sentido, as notas correndo pelo quarto fervente; e foi absolutamente sem esperar que se sentiu desmanchar em si mesmo, tão sublime, tão bendito, tão belo quanto o martírio dos santos, os mistérios gozosos… agonizou por alguns instantes e deixou-se cair sobre Lígia, subitamente iluminado e, todavia ainda humano, senão finalmente.

Teria ficado ali por muito tempo, drenado, os braços abertos em cruz, o suor formando-se na testa e rolando demorado até o lençol, feito os santos óleos, mas descobriu então que a revelação era impossível: se sabia quem realmente era, então não poderia ser mais ninguém. Num murmúrio de arrependimento, voltou-se ao ouvir a porta se abrindo e se deparou com as duas irmãs paradas junto à entrada do quarto leitoso, Leocádia condenando-o sem sequer expressar qualquer sentimento vivo no olhar e Amália sorrindo em compaixão, ambas em um silêncio que pulsava e latejava em suas próprias têmporas enquanto Lígia, ainda mais pura do que antes, como podia? deixava o leito de feltro e olhos de vidro e, sem se importar com a nudez aliviada, se punha ao lado das outras duas, o triângulo de fogo entre as pernas, ameaçando como uma fogueira infernal. Demorou um pouco para entender e reagir a tudo aquilo, mas logo se pôs a recolher as peças de roupa espalhadas diante da imobilidade das três irmãs traiçoeiras; ou traiçoeiro seria seu próprio sangue, sua própria alma, agora para sempre marcada por aquele conhecimento; sem retorno, com um futuro que jamais poderia deixar a sombra daquele quarto de brinquedo. Já em seu quarto, ainda o mesmo quarto de horas atrás, o último quarto, agarrou depressa as malas e o pacote de goiabada caseira, olhou a mãe ainda dormindo e deixou a casa apressado, os passos ressoando nas pedras do calçamento de uma cidade adormecida e refrescada pela madrugada que subia; atordoado e ao mesmo tempo onisciente, como um navegante que se perde no nevoeiro sem deixar de pressentir em que direção se encontra seu verdadeiro porto, a verdadeira pátria que deixou, de uma vez por todas, para trás.

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