Posts de dezembro \11\UTC 2009

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Daqui de cima, quem pode afirmar?

2009/12/11

(Data aproximada: final dos anos 90)

Daqui de cima, enfim, embora eu ainda pensasse ser pouco confortável o sótão todo cheio de tralhas, mas Artur tinha razão, e mesmo que precisássemos nos arrastar pelo chão empoeirado para chegar até a janela, tínhamos uma visão bastante boa do interior do sobrado, em especial da sala de visitas, toda carregada de tapetes e bordados velhos e um enorme gato de porcelana que me maravilhou desde o começo, três ou quatro dias antes, uma espécie de brincadeira de verão, mas afinal de contas eu tinha mesmo muito pouco que fazer com Elisa e as crianças fora e então Artur, fique alguns dias comigo, tenho algo inacreditável para te mostrar, e tinha mesmo, a garota do sobrado em frente era realmente demoníaca e falei isso logo na primeira tarde, mas Artur contestou, um anjo, e quem saberia dizer ?, nunca chegaríamos a concordar, a não ser com o fato de que algo estava errado, saltava, e não eram os cabelos compridos, muito pretos e pouco prováveis, ou o rosto completamente limpo, com toda a certeza cheirando a sabonete neutro, mas sem dúvida alguma a presença profana da mãe, enorme e úmida, com absurdos cabelos alaranjados que eu em absoluto não compreendia, eram dela, decerto, que vinham todas as franjas e almofadas brocadas, quase tudo um escândalo, uma coisa única e sem forma por onde a menina se movimentava, muito branca e nova, uma contradição áspera que as perversões Artur não deixaram passar em silêncio: se odeiam, me disse entre dois goles de café, a filha é uma traição, mas, de qualquer forma era impossível entender os gestos assim serenos com que arrumava a casa todas as manhãs, repetindo-se, e limpava uma série de animaizinhos duvidosos de vidro e Murano com uma flanela, devagar, quase distante, sem se importar com o ruído seco da faca que a mãe usava para limpar peixes sobre a mesa da cozinha, o que Artur dizia ser quase cruel. E não deixava mesmo de ser, grosseiro, mas quase nunca acabávamos tendo tempo para isso já que ela sempre terminava por desaparecer por quase uma hora para retornar com os cabelos escorridos, ainda molhados, e ficar escovando-os à janela com uma paciência ansiosa e pouco dissimulada. Era o momento em que corríamos maior perigo, embora não importasse muito e aquele olhar de geleiras derretidas, fresco e avermelhado de sabão, por vezes cruzava com o nosso, sem se deter, mas o bastante para que contivéssemos a respiração e Artur deixasse escapar um breve gemido denunciador. Era belo, no entanto, e ao mesmo tempo cruel que a mãe acabasse quase sempre por se colocar a seu lado, virtual, violando sua imagem quase santa, e apontasse para as pessoas na rua, dizendo coisas com uma voz que forçosamente imaginávamos venérea. Após os primeiros dois dias comecei a me perguntar se seria somente aquilo, mas Artur, calma, o melhor deve começar esta tarde, uma quarta, e de fato foi logo após nosso almoço rápido de sanduíches e cervejas, enquanto observávamos quase com inconsciência o contorno de planície de sua nuca e ombros, movimentando-se com uma suavidade perturbadora ao destrinchar os pedaços de peixe enquanto comia, as costas voltadas para a janela sempre aberta da cozinha. Logo depois, não compreendi direito a movimentação exagerada da mãe e filha ou o sorriso prévio de Artur, as duas remexendo objetos inúteis, ajeitando flores no vaso e borrifando alfazema nas almofadas espantosas, até que percebi a figura admirável do velho à porta, batendo timidamente enquanto ela desaparecia para dentro e a mãe acomodava os enormes peitos antes de atender, pretendendo um sossego caseiro impossível e sorrindo como uma flor assassina para o homenzinho, impecável em um terno preto brilhado pelo tempo e tinturarias, os cabelos brancos escassos debaixo de um chapéu de feltro que pensei nunca mais fosse ver e Artur, de novo, repare bem agora. O contraste era mesmo obsessivo, e o velho como que diminuía, absolutamente imobilizado, apesar de que nos olhos se abrisse qualquer forma de avidez apagada, que terminava no colo sorridente e engrossado com talco barato da mãe, de repente indefesa e fechando a porta que desejávamos transparente, embora pouco depois, Artur já preparado, eu me espantasse em ver o homenzinho se acomodar no sofá, as pernas muito juntas e firmes, as mãozinhas passas agarradas ao joelhos numa timidez ancestral, quase digna, mas traída pela inquietação móvel do pescoço e da cabeça de passarinho, enfim sossegada pela aparição intocável da menina, era mesmo impressionante, branca e terrível. Deixei, com toda a certeza, me revelar, o que Artur percebeu sorrindo, esticando-me mais uma lata de cerveja, não é perverso?, mas era mais do que isso, grotesco e silencioso, a mãe trancada na cozinha com uma chaleira de água ao fogo e o velho retorcendo os dedos abissais, tenso, indecente e, sem sequer erguer-se, acostumado ao ritual inexpressivo de vê-la sentar-se a seu lado após um beijo incompleto na testa coberta de manchas, Artur inexplicavelmente irritado: a mãe sabe bem o que faz, mas eu não podia concordar e toda aquela inocência estupidamente bela me incomodava, rescendia a ódios distantes, a paixões agravadas e afogadas nos próprios líquidos maternos, mas toda a casa de repente parecia desaparecer e se iluminar na fumaça violenta do café, trazido no tempo correto e servido em xícaras trêmulas com biscoitinhos em forma de coração, Artur: não dá, é preciso fazer alguma coisa, e enquanto a mãe saía, detestável, para começar a limpar uma enorme peça de carne, percebi que ele abria uma catálogo telefônico e desaparecia em seguida, ignorando meus avisos. Tornei à janela, o rosto quase colado ao assoalho sujo, num pânico injustificado e sem controle, sentindo as pulsações rápidas do sangue junto à testa molhada e contra o peito estendido, temendo quebrar um silêncio inexistente que me jogava sala adentro, descoberto, sem defesas, ouvindo desonestamente o telefone tocar e a mãe largar o enorme facão, enxugando em um avental imaculado as mãos úmidas de sangue bovino, para atender e, espantada, estender o aparelho para o velhinho, agora desajeitado, flagrado em seus mais obscuros vícios e perdições temporais e, no entanto, procurando impor-se, através da própria sobriedade de roupas e limitações linfáticas de gestos, à quietude sonora e imóvel das duas mulheres, a menina, Artur precisava ver isso, a menina avermelhando, sem a timidez que eu desacreditava, mas descoberta premonitoriamente em uma armadilha reversa, congelando-me na escuridão protetora do quartinho de Artur ao erguer-se devagar, graciosa, e colocar-se à janela, impossível, mas consciente de que éramos nós, acusadora, e decerto iria me lançar um olhar ameaçador, mortal, se o velho não retornasse de repente e esboçasse uma desculpa qualquer sobre o que nem eu, nem as duas mulheres viríamos nunca a saber, mesmo porque Artur em seguida, mudo ou até mesmo um pouco envergonhado: só apressei um pouco as coisas, porra, e não pude imaginar como, senão que lá embaixo tudo retornava a uma normalidade quase cristalizada e, enquanto a mãe voltava aos facões mórbidos de sua selvageria, os dois continuavam o diálogo pálido do namoro mais que improvável, ele retirando do bolso interno do paletó uma caixinha embrulhada em papel prateado e parecendo aplacar um tantinho a raiva súbita de invadida, que a tornava ainda mais bela depois da intervenção do chamado de Artur. É claro que era mais um bichinho de vidro transparente, provavelmente um peixe, com minúsculos olhos vermelhos, acompanhado de um levantar-se muito reservado e uma despedida breve que a mãe veio retribuir perfumada de tempero, coentro e cebolas roxas, liberando-nos assim para um banho cansado, uma garrafa de vinho tinto e uma perturbação insone que me incomodou até as três da madrugada, mas não me impediu de estar estirado ao chão do sótão logo cedo, na manhã seguinte, revendo a mesma liturgia de flores murchas trocadas e flanelas, que Artur pareceu assistir com certa decepção nervosa, insatisfeita, só tornando a abrir algum interesse quando o velhinho dobrou a esquina na precisão inconcebível de seus horários inúteis e espantando-nos, é claro, pelo pressentimento de flores que trazia com dificuldade nos braços, um vaso imenso de prímulas novas que me trouxe uma assustada sensação de desconforto e em Artur, ao contrário: ah, então vai ser assim? as flores são para a mãe, e foram, mesmo. O sorriso da mulher pareceu realmente honesto, puro contentamento, o que Artur confirmou em uma lucidez premonitória, que seria divertida não fosse a seriedade da coisa toda, mas afinal iniciou-se a trégua adocicada do café e comecei a me tranquilizar sobre as prímulas, nada demais, talvez, até que então a surpresa antecipada de mais uma caixinha prateada, desta vez um pouco cedo até mesmo para a menina, que a abriu quase tensa para encontrar um magnífico unicorniozinho que deveria ter um significado maior, já que pareceu maravilhada, liberta, aliviada de um tipo de resguardo que não consegui compreender, nem mesmo Artur, que pôde anunciar: é agora, deve ser, e foi mesmo com um terror impotente que vi o velho erguer a mão pacífica de mar interior, um esquecido anel de formatura no indicador, para tocar-lhe um dos seios com uma volúpia débil e desaprendida, quase um respeito perverso, sem entender mesmo o grito de ódio que a mãe não deixou de ouvir e a vidência de Artur aguardava deliciada durante todo aquele tempo. Jamais pudemos concordar quanto ao que se seguiu e enquanto Artur via o velho retesar-se todo num retorno agressivo à virtude amorfa de seus órgãos, eu vi uma névoa indignada de ódio instaurar-se no olhar parado da menina. Enquanto Artur assistiu maravilhado à retirada muda e derrotada do velhinho, um inclinar de cabeça quase agradecido sob a satisfação vingada da mãe, eu apenas percebi com um terror sereno que ela derrubava o unicórnio ao chão enquanto suas mãos aturdidas procuravam furiosas por algo, qualquer coisa, um refúgio, até encontrar uma sólida estatueta de bronze que desferiu repetidas vezes sobre a cabeça insolente do homenzinho. Enquanto Artur acompanhou-o até a última esquina de seus desejos terminados, vi uma enorme mancha de sangue crescendo devagar e em paz sobre as almofadas aspergidas e o estofamento do sofá cerimonial, nós dois no mais completo silêncio e na certeza bipartida de que víamos e ouvíamos o que estávamos aguardando durante toda a semana, cada um a seu modo e desejo, no entanto, daqui de cima, quem pode realmente afirmar?

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Por que não?

2009/12/11

Por que eu demorei tanto para fazer isto? Não sei… Por muitos anos preservei aquela ideiazinha gostosa de ver um livro publicado, pequeno que fosse, de pegá-lo nas mãos, o papel novinho, cheirando a livro mesmo… abrir e me ver ali, tantos Fernandos diferentes, de tantas épocas diferentes, tantos olhares diferentes, tantos medos e vontades diferentes… e essa ideiazinha, gostosa, aos poucos virou sonho e eu nem percebi. Tanta coisa que eu não percebo mais… e de repente, assim sem querer, caí aqui e pensei: por que não? Talvez não cheire a livro, mas ao menos tem a alma de um…

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